Colocado em 30. Novembro 2019 In Vozes do Tempo

Um chamamento à conversão pessoal e comunitária, com consequências sociais

CHILE, Pe. Juan Pablo Rovegno

No meio dos desafios e dificuldades do Tempos, dois sinais nos encheram de alegria e gratidão: o encontro internacional de Madrugadores em Picarquin e a Ordenação de seis novos irmãos sacerdotes da comunidade dos Padres de Schoenstatt.—

Dois acontecimentos que nos ajudam a viver com esperança o momento difícil em que vivemos, porque nenhum de nós ficou indiferente aos acontecimentos patrióticos, todos nós fomos retirados de nossa rotina e da nossa estabilidade, inclusive emocional. Há compatriotas que viram desaparecer as suas PME (pequenas e médias empresas NT), as suas fontes de emprego, os seus meios de transporte, a sua segurança, muitos têm de lidar com uma maior marginalidade nas suas povoações, outros com a incerteza do futuro no trabalho, nos estudos, na integridade física e mesmo na vida.

As imagens de violência, os enfrentamentos, a repressão controlada e excessiva das mobilizações, a força pública ultrapassada e quase isolada na sua tarefa de vigiar a ordem pública, as mortes, os feridos, os excessos, os direitos humanos violados, a destruição, a pilhagem, a polarização e desqualificação política, os encapuçados, as forças especiais, a escalada das mobilizações… Juntam-se assim a tantos fantasmas que despertam, abrindo velhas feridas, supurando medos ou expectativas.

Dói-nos este Chile porque o amamos, dói-nos porque depois de uma sexta-feira de fúria a 18 de Outubro, uma sexta-feira de esperança com uma multitudinária e transversal marcha pacífica uma semana depois, percebemos a dor de ainda não nos termos encontrado, de irmos atrás de mais, de continuarmos a alterar a paz social, a base inegável da autêntica justiça social.

Dói-nos. No entanto, para uma pessoa de fé, esta dor não tem a última palavra. Cremos num Deus que interveio e intervém na noite escura da História, para a encher de luz. Mas ele intervém connosco: quando Jesus ressuscita, não nos dispensa de olharmos para nós próprios com um mínimo de autocrítica, de questionamento, de revisão pessoal. Isto foi o que os discípulos de Jesus experimentaram um a um, não como reprovação, mas com a maturidade necessária da vida, o que implica assumir fraquezas, erros e até mesmo pecados. Foi uma chamamento à conversão.

Os momentos dolorosos e desafiadores que estamos a viver agora, desafiam-nos para esta nova conversão.

 

Pe. Juan Pabo Rovegno

Três dimensões de conversão

Falar de Conversão é falar da possibilidade de dar sentido, profundidade e projeção ao tempo em que vivemos. A conversão tem três dimensões: pessoal, comunitária e social. Poderíamos descrevê-la como uma conversão pessoal e comunitária com consequências sociais.

Uma conversão pessoal, porque apela à liberdade e a cada um na sua originalidade, nas suas capacidades e limites, nas suas forças e fraquezas, na sua essência, na sua história. O passo é pessoal. Mesmo que os acontecimentos gritem diante de nós, precisamos questionar-nos pessoalmente, complementar o nosso olhar, assumir realidades, sair das nossas defesas e seguranças. A magnitude daquilo que vivemos e do que afeta o todo social, tem que nos interpelar, tem que nos questionar, porque algo novo tem que despertar em cada um de nós. Algo tem de mudar.

Uma conversão comunitária, porque somos seres sociais e precisamos uns dos outros. Uma conversão comunitária que nos leve a uma nova forma de relação colaborativa, co-responsável e complementar. Passar da desconfiança à boa fé, da polarização ao encontro, da indiferença à solidariedade, do egoísmo à colaboração, da exclusão à pertença, da violência à paz.

A crise que vivemos pôs-nos, à queima-roupa, perante tantas desigualdades, distâncias herdadas ou adquiridas, ressentimentos que não foram canalizados ou resolvidos, realidades que não foram reconhecidas ou assumidas, posições que não foram matizadas ou complementadas. Enquanto cada um de nós permanecer na trincheira dos seus ídolos, fantasmas, preconceitos e estruturas, não poderemos avançar adequadamente. Não é altura para o oportunismo dos abutres, nem para a covardia dos fracos de coração, nem, muito menos, para o vício da anarquia. É tempo de nos encontrarmos e isto requer uma grande humildade de diálogo, de complementaridade e de procurarmos, juntos, caminhos e soluções.

Uma conversão pessoal e comunitária com consequências sociais, porque o país mudou e não pode ser o mesmo. Haverá um reordenamento das prioridades, uma revisão dos modelos, um espaço para a discussão pública e concretizações realistas e necessárias. Mas não podíamos continuar como estávamos: desligados da realidade, anestesiados pelo consumo, pelo desequilíbrio da vida, pelo conluio e pelo abuso, pela evasão virtual, pelos números macroeconómicos e pela pretensão ingénua de sermos um país sem fricções nem fracturas, acreditando que somos um modelo digno de imitação e um protagonista internacional. Um país disfarçado de desenvolvimento, mas com lacunas sociais insuportáveis e uma dolorosa falta de equilíbrio e dignidade para muitos em termos de oportunidades, possibilidades, estilos de vida e tratamento. Um país que estava a incubar a frustração e a indiferença, deixando assim um espaço muito propício para a libertação desenfreada de energias negativas.

A nossa conversão tem um modelo: Jesus. E uma maneira pedagógica de O tornar presente, Maria.

Os acontecimentos têm sido de tal magnitude que as consciências estão a ser remexidas, e hoje vemos os poderosos a falar com humildade e empatia, e os fracos com dignidade e direitos. Estamos a iniciar um caminho de conversão.

Para nós, seguidores de Jesus e aliados de Maria, é uma oportunidade para decifrarmos os sinais dos tempos à luz da pessoa, gestos e atitudes de Jesus, assim como valorizar, conhecer e aplicar a doutrina social do Magistério da Igreja e o pensamento social do Pai e Fundador. Não podemos esperar que a hierarquia eclesial faça alguma coisa ou lidere o processo de encontro social; perdemos esse espaço; agora é um espaço ganho para todos nós que somos Igreja, colocando Jesus no centro das reflexões, decisões e concretizações da mudança social de que necessitamos.

A nossa conversão tem um modelo: Jesus. E uma maneira pedagógica de O tornar presente, Maria. Concretizá-l’Os na realidade, como modelo e forma, é tarefa de todos.

 

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Fotos: Mauricio Ramírez e Antonio Barbagelata, via Secretariado Nacional do Movimento de Schoenstatt do Chile

Original: espanhol (29/11/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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