Columna P. Enrique Grez López

Colocado em 2021-11-27 In Coluna - P. Enrique Grez López

A máquina de fazer perguntas – René Magritte

Pe. Enrique Grez •

O Museu Thyssen-Bornemisza oferece-nos uma retrospectiva do pintor belga René Magritte. A exposição assemelha-se a um concerto de enigmas. Mesmo que se trate de uma pintura apolínea limpa e arrumada, o artista submete-nos a um bombardeamento de perguntas que, põem à prova as nossas certezas. É um exercício desconstrutivo que produz desorientação, mas ao mesmo tempo permite-nos apreciar a fragilidade das categorias com as quais tendemos a julgar o mundo. —

Rene Magritte

René Magritte – The Treachery of Images (This is Not a Pipe), 1929, photo: CC BY-NC 2.0 by Thomas Hawk; en https://publicdelivery.org/magritte-not-a-pipe/]

Em criança adorava ir buscar os livros de arte que a minha mãe tinha na estante. Magritte’s era um dos meus favoritos e, costumava mostrá-lo aos meus amigos quando eles vinham cá a casa. Cada ilustração era como uma adivinha. À primeira vista, as pinturas pareciam-me muito normais e legíveis, diferentes do resto da arte contemporânea, confusas e cheias de manchas. Em Magritte, um cachimbo era um cachimbo, uma colina era uma colina e um homem de chapéu, apenas isso, um homem de chapéu. No entanto, por detrás da estética quase realista, escondiam-se enigmas estupendos: acontece que debaixo do cachimbo dizia: isto não é um cachimbo, as rochas mais altas do monte escondiam a cabeça de uma águia, e o homem de chapéu olhava para o fundo do quadro a partir da mesma posição que nós, os espectadores.

Sendo adulto continuo a gostar da obra de Magritte. Mas descobri que não são apenas divertimentos engenhosos. Nos seus tons pastel, nas suas linhas claras e na sua aparente frontalidade, temos verdadeiros tratados de filosofia e semiótica. As suas pinturas questionam o significado de assuntos tão delicados como o autor, o objecto pintado e a moldura; abana temas centrais: observação, representação, ser e a sua negação. O pior é que ele coloca estes dilemas sem pestanejar, como se não importasse que derrubasse propostas comunicacionais milenares. Embora este caminho de controvérsia tenha sido subtilmente iniciado por artistas tão importantes como Velázquez e Bernini, a prática pictórica de Magritte atinge níveis de subversão sem precedentes.

Tens a certeza que o quadro mostra o que tu imaginas?

A exposição Thyssen é generosa. Contém mais de 90 obras sobre uma vasta gama de temas. Algumas das pinturas a óleo mais famosas do artista estão expostas, tais como “A Chave dos Campos”, “Tentativa do Impossível” e uma versão a tinta da china de “A Traição das Imagens”. A visita à exposição é intensa: somos repetidamente desafiados pelas incógnitas de Magritte. Mal descansamos o nosso olhar sobre uma das suas composições ordenadas, uma daquelas com o céu celestial salpicado de nuvens infantis, recebemos a investida desconstrutiva dos seus exames: Tens a certeza que a pintura mostra o que tu imaginas? É a realidade tal como dizemos que ela é? O que é uma imagem? O que é imaginar?

As suas perguntas são inquietantes e instalam-se profundamente no nosso intelecto enquanto percorremos a exposição ou folheamos um livro monográfico sobre Magritte. Perplexo, um leitor desta página devocional poderia perguntar-se porque é que este padrezito tenta confundir-nos com assuntos tão estranhos? Esta mesma coluna parece tornar-se, palavra após palavra, numa espécie de tabuleiro surrealista. Mas a minha resposta é que este assunto é da maior importância.

A peste, as crises económico-sociais e as batalhas culturais preocupam-nos. Recorremos, então, à nossa bateria de doutrinas imutáveis para nos defendermos contra a insegurança. Em tempos de medo e ódio, tempos como o de Magritte ou o nosso, enchemo-nos de certezas. Fazemo-lo instintivamente, sem pensar. Mas isso não nos faz bem; se não o dominarmos, o medo e verdades inquestionáveis podem levar-nos a cometer erros, mesmo crimes. Os cristãos também. Não seria a primeira vez. Talvez Magritte, e tantos outros artistas, nos façam um favor ao apresentar-nos gentilmente uma série de enigmas desconstrutivos que, poderiam muito bem ser o vade-retro de algumas posições rígidas que, abraçamos com um pouco de fanatismo.

Na Idade Média, o grifo, um animal mitológico com cabeça e asas de uma águia e o corpo de um leão, representava o poder de Deus, perante o qual somos desarmados. Os logo-grifos de Magritte são, talvez, algo semelhante: artefactos que demonstram o poder do mistério. São como enigmas que nos desarmam para olharmos para o mundo novamente com um pouco de humildade.


Ficha Técnica

TITULO: A Máquina Magritte
LUGAR: Museu Thyssen Bornemisza, Madrid. Espanha
DURAÇÃO: de 14 de Setembro de 2021 a 30 de Janeiro de 2022
CURADOR: Guillermo Solana
DESCRIÇÃO: Exposicão com obras plásticas surrealistas
LINK: https://www.museothyssen.org/exposiciones/maquina-magritte

INFORMAÇÃO: Esta coluna é sobre uma exposição de arte que tem lugar numa determinada cidade. Entende-se que nem todos os leitores a podem visitar. Para que a distância não seja um impedimento para desfrutar, sugerimos uma visita ao website do museu, onde algumas das obras mais notáveis podem ser admiradas. A coluna é também um convite à contemplação de obras de arte relacionadas que estejam mais à mão.

Original: espanhol (24/11/2021). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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