Missbrauch

Posted On 2022-11-13 In Artigos de Opinião

Como acontece o abuso espiritual na Igreja?

ALEMANHA, Maria Fischer •

“O narcisismo clerical é a pedra angular do abuso espiritual”, diz o Dr. Martin Flesch, especialista em psiquiatria e psicoterapia, numa entrevista concedida a Felix Neumann em Katholisch.de , o portal de notícias da Igreja Católica na Alemanha. O motivo da entrevista foi a publicação do livro “Os Afectados”. Espaços de sofrimento psicológico na Igreja Católica“, em que Martin Flesch usa 12 histórias de casos para descrever experiências de abuso espiritual, não só por clérigos, mas também por figuras poderosas, mulheres e homens, em Ordens Religiosas, Comunidades espirituais e Movimentos.

Martin Flesch é um especialista em psiquiatria e psicoterapia com uma especialização em psiquiatria forense. Desde 2012 tem estado activo na sua clínica como testemunha especializada em várias áreas do direito, incluindo o direito canónico. Tratou numerosas vítimas de abuso espiritual e sexual. Em Outubro o seu livro “Die Betroffenen”. Seelische Leidensräume in der Kirche” (Os Afectados. Espaços de Sofrimento Psicológico na Igreja Católica) foi publicado pela Echter-Verlag em Outubro.

“Como acontece o abuso espiritual na igreja? O psiquiatra Martin Flesch aborda esta questão no seu livro “Os afectados”, no qual ele descreve e analisa “os espaços de sofrimento psicológico na Igreja Católica”. Ele está convencido: que, por detrás da utilização das relações pastorais, por detrás das feridas e do sofrimento, existe um sistema que atrai e favorece os perpetradores”, diz Felix Neumann no artigo de 3 de Novembro de 2022.

Enquanto houver uma relutância em questionar tanto as estruturas narcisistas como as orientadas para o poder e em adoptar uma posição completamente impotente e orientada para a Pastoral, não há possibilidade de mudança”, disse o Dr. Martin Flesch, que pertence ao Movimento de Schoenstatt. “As mesmas estruturas que tornaram possível o abuso são também responsáveis pelo facto de as pessoas afectadas não serem ouvidas adequadamente após o abuso”.

Entrevista original Entrevista original em alemão

Publicamos aqui, com autorização da equipa editorial de katholisch.de, a tradução para castelhano (da qual é feita a tradução para português) da entrevista integral.

O narcisismo clerical é a pedra angular do abuso espiritual
VEITSHÖCHHEIM – Quando os clérigos se tornam perpetradores é numa fase inicial, diz o psiquiatra Martin Flesch numa entrevista para Katholisch.de: com demasiada frequência, a própria vocação serve de sucedâneo num conflito da própria personalidade. É assim que surge o terreno fértil para o abuso espiritual na própria estrutura da Igreja.

Como é que o abuso espiritual acontece na Igreja? O psiquiatra Martin Flesch aborda esta questão no seu livro “Os Afectados”, no qual descreve e analisa “as áreas de sofrimento psicológico na Igreja Católica”. Está convencido de que por detrás do uso de relações pastorais, por detrás das feridas e do sofrimento, existe um sistema que atrai e favorece os perpetradores. Numa entrevista à Katholisch.de, o especialista em psiquiatria e psicoterapia explica onde os responsáveis pela formação dos padres têm de começar para ultrapassar o clericalismo.

Pergunta: Sr. Flesch, narcisismo é uma palavra-chave para si. Escreve que as estruturas de abuso surgem de constelações e conflitos narcisistas. Porque é que o narcisismo é tão central para interpretar o abuso espiritual?

Flesch: O narcisismo é a pedra angular das estruturas de abuso e apenas um pré-requisito para um clericalismo persistente. É um fenómeno eclesiástico que as pessoas ascendem a posições de poder para escapar ao seu próprio sentimento de inadequação, de não significar nada ou de não ser nada como um ser humano “normal”. Os défices psicológicos devem ser compensados através do enriquecimento da própria esfera de eficácia através do poder e da influência. É por isso que chegamos sempre a estruturas narcisistas com as quais temos de lidar, se também quisermos lidar preventivamente com estruturas de abuso.

Pergunta: A crítica a uma imagem exagerada dos padres não é nova.

Flesch: Claro que não inventei estes factos. Declarações mais antigas com uma base mais profunda podem ser encontradas noutros autores tecnicamente formados, tais como Eugen Drewermann (“Kleriker” de 1989). Estas não são teorias ou hipóteses que eu tenha tirado da minha cabeça ou copiado. A descoberta foi-me confirmada antes de mais pelo meu trabalho clínico em casos concretos, e a partir daí deduzi e verifiquei estas hipóteses. O que Drewermann diagnosticou há mais de 30 anos ainda é actual e verificável na prática.

Pergunta: Como é que isto se reflecte no seu trabalho?

Flesch: Continuo a encontrar conteúdos e representações fenomenológicas semelhantes em clérigos e pessoas religiosas que vêm à minha clínica. Tinham frequentemente um fascínio pela religião desde muito cedo. Muitos dizem que a vocação foi e é o único caminho viável para eles, sem poderem evitar a legitimação para o sacerdócio, por exemplo, com base num chamamento “ser escolhido”. A vocação é vista como um lugar seguro que dá protecção e segurança, mas também é experimentada como uma troca de papéis e de vidas. Muitos que possuem um grau de introspecção descobrem que viram a vocação como uma compensação por deficiências pessoais. Mas o que todos eles parecem ter em comum, se os acompanharmos por tempo suficiente, é o medo de se confrontarem com a sexualidade, as capacidades relacionais e a liberdade de decidir sobre uma vocação.

Pergunta: Estamos a falar de padres como potenciais perpetradores ou de padres que são vítimas de abuso espiritual?

Flesch: Antes mesmo de se poder falar de estruturas perpetradoras, quase sem excepção, estas personalidades são inicialmente afectadas: encontram-se na situação tensa e conflituosa de terem de se conformar com as suas próprias deficiências de personalidade, que dificilmente lhes permitem integrar-se. Fala-se de uma identidade desintegrada, porque muitos não sabem realmente quem são. Nesta base, surge o potencial e o vazio inicialmente ainda difuso dos abusos que podem ser cometidos mais tarde.

Pergunta: Os candidatos ao sacerdócio estão a envelhecer. Quase ninguém começa directamente depois do Seminário, a maioria tem uma vida e um emprego antes de entrar no Seminário. O problema está a ser mitigado por esta crescente experiência de vida dos novos padres?

Flesch: Talvez, mas não tem de ser. A questão é: Como foi utilizado o tempo até ao momento da vocação? É de pouca utilidade se se decidem dez anos mais tarde, do que tem sido habitual em média, para o sacerdócio ou para a vida monástica, se nestes dez anos eu ainda tiver o nível de maturidade que tinha quando tinha 18 ou 20 anos de idade. Se eu não aproveitei as oportunidades para me desenvolver pessoalmente enquanto procurava o caminho de vida certo para mim, os mesmos problemas surgem com os candidatos mais velhos. Também para eles surgem as mesmas dúvidas que entre os jovens sobre a integração da sua própria sexualidade, a orientação sexual, a capacidade de estabelecer relações e a capacidade de moldar livre e pessoalmente as suas vidas. 

Pergunta: E como é que isto pode ser tratado na formação sacerdotal?

Flesch: Actualmente, a formação sofre com o facto de predominar uma funcionalização do sacerdócio, o que leva a um desequilíbrio entre pessoa e o cargo. Em vez disso, seria importante deixar espaço e desenvolvimento para a subjectividade. Em última análise, isto significa que precisamos urgentemente de uma reconciliação de cargo e pessoa. A fé como a realização da existência humana e da realidade de vida do indivíduo deve vir à tona. Em termos muito práticos, isto significa para a formação de sacerdotes que precisamos urgentemente de tempo e módulos suficientes para o encontro consigo próprio, para o amadurecimento da personalidade e, sobretudo, para a auto-análise. Sem estes pré-requisitos, na minha opinião, uma personalidade sacerdotal reconciliada consigo mesma não é possível. 

Pergunta: Vê uma vontade de fazer tais mudanças por parte dos Bispos, que são os últimos responsáveis pela formação dos sacerdotes nas suas Dioceses?

Flesch: Pelo menos em parte, vejo uma vontade de enfrentar estas questões e de fazer mudanças nesta direcção. Em caso algum será suficiente alterar módulos individuais na formação de sacerdotes sem fazer alterações significativas no sistema clerical. Mas, claro, os próprios Bispos também fazem parte deste sistema e estão integrados nas estruturas do clericalismo. Isto torna difícil a reforma e a superação do sistema. Se faltam os pré-requisitos necessários para a introspecção, a realidade da psique por detrás do visível não é reconhecida, em particular, não há capacidade de introspecção na ambiguidade do sistema clerical.

Pergunta: No seu livro deu uma voz às pessoas afectadas e elas queixam-se de que o processo é inexistente e de que não são suficientemente ouvidas.

Flesch: As mesmas estruturas que tornaram possível o abuso são também responsáveis pelo facto de as pessoas afectadas não serem adequadamente ouvidas após o abuso. Enquanto eu, como clérigo, não tiver conhecimento destas estruturas e não me perguntar até que ponto isto tem algo a ver com a minha própria personalidade, não serei capaz de elevar o nível de sensibilidade necessário na comunicação com os afectados. Numerosos sacerdotes e membros de ordens religiosas que acompanhei, ou que também empregues no serviço da Igreja, queixam-se repetidamente da frieza emocional e da incapacidade de relação que têm de experimentar na sua comunicação com a liderança das Dioceses ou Ordens religiosas.

Pergunta: Nos vários estudos de avaliação, lê-se repetidamente que os Bispos e os gestores de pessoal estavam sobrecarregados quando se tratava de comunicação com os afectados. Então são realmente os responsáveis da igreja que precisam primeiro de terapia?

Flesch: Eu diria definitivamente que sim em casos individuais. Com assustadora regularidade, verifica-se que precisamente estas personalidades, que seguem o caminho da vocação com base na sua inadequação emocional e estrutural, encaixam nas estruturas clericais superiores como uma chave numa fechadura – porque, evidentemente, a funcionalização do cargo também evita que as pessoas afectadas se confrontem a si próprias e às suas próprias deficiências. Enquanto houver uma relutância em questionar tanto as estruturas narcisistas como as orientadas para o poder e em adoptar uma posição completamente impotente e orientada para a Pastoral, não há possibilidade de mudança. Claro que mesmo as pessoas em posições de liderança religiosa só podem apoiar adequadamente os seus colaboradores na medida em que tenham ído fundo no âmbito da sua auto-análise.

Pergunta: Existe alguma esperança para a Igreja e para as pessoas afectadas por abusos espirituais?

Flesch: Para as pessoas afectadas individualmente, existe sempre a possibilidade de recuperar um certo grau de estabilidade e qualidade de vida através do apoio terapêutico, dependendo do grau de traumatização. Mas também tenho esperança para a Igreja como um todo, se Ela se concentrar em viver e transmitir a mensagem central de Jesus. Esta mensagem nunca foi sobre estruturas de poder, influência e clericalismo. Tratou-se sempre de transmitir a auto-aceitação com base no desenvolvimento da personalidade, de modo a poder viver e transmitir misericórdia. Esta é a esperança da Igreja.
Por Félix Neumann

 

Original: alemão (9/11/2022). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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