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Colocado em 2022-07-15 In Artigos de Opinião, Laudato Si

Uma Aliança com a Terra

César Fernández-Quintanilla, Espanha •

O dom do carisma de Schoenstatt deve poder ser implementado em todas as áreas da sociedade: o mundo político, social, empresarial e ecológico. Nesta linha, devemos construir respostas e ver como a nossa espiritualidade pode contribuir concretamente em cada uma destas áreas. É uma questão de aprender a viver todas as dimensões da nossa Aliança de Amor com Maria sempre de novo e cada vez mais intensamente. —

Um testemunho de especialista

Estava a pensar escrever algo sobre a nossa resposta no campo ecológico quando me deparei com o último número (Julho de 2022) da revista Vinculo. Nesta edição encontrei uma entrevista com Juan Carlos Muñoz, PhD em Engenharia Ambiental pela Universidade de Berkeley, membro do Comité Científico para as Alterações Climáticas do Chile e actualmente Ministro dos Transportes e Telecomunicações do Chile. A sua visão profissional especializada está associada a um espírito de Schoenstatt adquirido desde a sua juventude. Uma vez que eu próprio não conseguiria dizer melhor, reproduzo directamente as suas próprias palavras:

Entrevista a Juan Carlos Muñoz
«”Estamos perante uma crise climática sem precedentes que ameaça a nossa existência e, a propósito, a de muitas outras espécies.

Fico impressionado com a ligeireza com que encaramos esta questão. Embora poucas pessoas ainda considerem estes alarmes exagerados, a Humanidade parece continuar a viver principalmente em modo automático, embora os nossos cientistas prevejam que isso nos levará a um precipício. É urgente reagir e tomar medidas que serão desconfortáveis. Foi precisamente a procura de conforto a qualquer custo que nos trouxe até aqui. Sou um grande crente de que a mensagem cristã é reproduzida em pequenos actos quotidianos, ao fazer o pequeno, o ordinário, extraordinariamente bem. E que “nada sem ti, nada sem nós” é muito eloquente que a sociedade a que aspiramos exija que cada um de nós faça a sua parte. Penso que é muito importante que o mundo reconheça fortemente a crise sócio-ambiental que estamos a atravessar. Parece ser o desafio mais importante que a Humanidade alguma vez enfrentou.

Tendo em conta esta situação, a encíclica “Laudato Si” é extremamente consistente com os 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. O nosso papel como Humanidade exige cuidados especiais para com o ambiente. Creio que existe aqui uma concordância que exige que todos nós tomemos medidas, exigindo que as nossas autoridades enfrentem esta crise com a determinação necessária e a compreensão de que as respostas serão muito provavelmente desconfortáveis para nós. Que a crise é precisamente o resultado de uma vida confortável que nos levou a exceder os múltiplos limites planetários de forma sistemática e inconsciente. Creio que a questão que devemos colocar-nos individual e colectivamente é como as nossas acções diárias contribuem decisivamente para agravar a crise ou para a resolver. Perguntemo-nos como passamos do problema a ser parte da solução que nos permita deixar às gerações futuras um planeta igual ou melhor do que aquele que recebemos dos nossos antepassados.

E é aqui que o convite é para questionar o nosso modo de vida. Questionar quanto do meu estilo de vida exige mais do planeta do que é capaz de regenerar, e quanto do meu modo de vida dignifica as pessoas com quem coabito e contribui para uma sociedade mais equitativa e sustentável. E nisto, cada um de nós pode identificar diferentes formas de reduzir a nossa pegada.

No meu caso, esta reflexão levou-me a mudar os meus hábitos alimentares, mobilidade, gestão de resíduos e conservação dos recursos naturais à minha disposição. Tenho a certeza de que todos podem fazer um esforço. É uma nova versão de “dar até doer”, mas hoje a nossa contraparte não é apenas os mais pobres da sociedade. É também a mãe terra e todos os seus maravilhosos ecossistemas e seres vivos”.[1]

Criando vínculos

Cuidar da terra não deve resultar simplesmente de uma abordagem intelectual ou de um medo das consequências negativas de não o fazer. Deve vir do amor, respeito, e admiração pela Criação de Deus. Devemos ser capazes de ver atrás de cada sinal da Natureza a presença de Deus e de nos apegarmos profundamente ao planeta.

Aqueles de nós que tiveram o privilégio de passar uma parte da sua infância ou juventude em estreito contacto com a Natureza criaram esses laços naturalmente. Nós “mamamos” directamente da terra. Outros criaram-nos de muitas maneiras diferentes: escalando montanhas e desfrutando da sua solidão e incomparável beleza, caminhando por montanhas e campos em busca de uma perdiz esquiva, no silêncio do Caminho de Santiago… O importante é ter sentido essa presença divina à sua volta e dentro de si. E ter sido capaz de apreciar o valor incalculável destas experiências. Neste sentido, os pais têm a grande tarefa de transmitir este amor pelo ambiente aos seus filhos através de excursões a paisagens naturais, caminhadas, acampamentos…

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Cuidar da terra

Tudo isto não é uma tendência actual, uma moda passageira. Já na Torah, um livro escrito quase 900 anos antes de Cristo, pode ler-se: “Olha para a minha criação, como é bela e agradável (…) e eu fiz tudo para ti”. Mas o mesmo texto continua: “Cuidado para não danificar o meu mundo, pois se o alterarem, não há ninguém que o possa corrigir”. O Papa Francisco, na sua encíclica “Laudato si” lembra-nos: “Os textos bíblicos mostram-nos que o mundo nos foi confiado, chamam-nos a estabelecer relações fraternas com todas as criaturas e a contemplar e preservar a beleza da Criação”. É bastante claro que temos um mandato divino para cuidar da terra. E, aparentemente, não estamos a cumprir muito bem as nossas obrigações. Como Juan Carlos Muñoz explica correctamente no texto anterior, estamos a enfrentar uma grave crise ambiental. As alterações climáticas, a perda de biodiversidade, a poluição dos mares e oceanos estão a conduzir-nos a uma situação muito delicada, e não sabemos se é irreversível. É importante que tomemos consciência destes factos e tentemos corrigir o que estamos a fazer mal. 

É tempo de agir em prol do planeta

Este foi o lema da Cimeira do Clima que deveria ter sido realizada em Santiago do Chile em 2019 e que finalmente teve lugar em Madrid. E esta é a nossa tarefa. Certamente, existem muitas organizações governamentais, nacionais e internacionais que lidam com estas questões e que organizam reuniões e projectos. E parte da nossa tarefa é contribuir com a nossa pressão social para transformar estes bons votos em acções concretas com objectivos ambiciosos. Mas temos outras tarefas pessoais a realizar: utilizar mais os transportes públicos, poupar energia, consumir mais produtos vegetais e menos produtos animais, reduzir a utilização dos recursos naturais, especialmente a água, reutilizando-os sempre que possível, para educar tanto as novas gerações como as mais velhas que não receberam esta educação nos seus dias. Em Schoenstatt, temos uma tarefa adicional. Temos de considerar como o nosso carisma específico pode ser implementado nesta área. Não me sinto qualificado para abordar esta questão, mas não quero terminar este texto sem a colocar sobre a mesa.


[1] Fonte: Revista Vínculo, Julho de 2022. Com a permissão dos editores

 

Original: espanhol (11/7/2022). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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