Colocado em 2021-03-13 In Artigos de Opinião

Reação ao texto “Informações da Presidência Internacional da Obra de Schoenstatt”

Brasil, Pe. Matheus da Silva Bernardes •

O texto publicado pela Presidência Internacional da Obra de Schoenstatt pelo site oficial schoenstatt.com em 10 de março de 2021 mantém o tom de textos anteriores, isto é, a ausência de autocrítica construtiva e a absoluta incapacidade de empatia para com as vítimas de abuso. –

Quando se imagina que toda a problemática em torno da pessoa do Pe. José Kentenich, fundador do Movimento Internacional de Schoenstatt, esteja se acalmando, novas situações mostram que um desfecho ainda está longe de chegar.

Essa problemática veio a público quando a historiadora Alexandra von Teuffenbach, há quase um ano, revelou ao site katholisch.de que, ao pesquisar os arquivos secretos do Pontificado de Pio XII, se encontrou com um volume grande de material sobre o período da Visitação Apostólica a Schoenstatt levada a cabo pelo padre jesuíta Sebastian Tromp, assessor do Santo Ofício. Nesse material, a historiadora se deparou com uma série de acusações de abuso cometidos pelo Pe. José Kentenich, inclusive uma acusação de abuso sexual.

O resultado do trabalho de Alexandra von Teuffenbach pode ser visto no primeiro volume da obra “Vater darf das”, publicado em alemão pela Editora Traugott Bautz. Há informações de que uma tradução desse volume ao espanhol está em curso, além de que a própria autora já afirmou que, em breve, será publicado um segundo volume.

A ausência de uma voz única, que manifestasse a preocupação de esclarecer as circunstâncias e os fatos das acusações de abuso contra o Pe. José Kentenich, levou vários membros do próprio Movimento a questionarem o grau do obscurantismo no qual a oficialidade se move.

Desde a entrevista de Alexandra ao site katholisch.de, é preciso reconhecer que a oficialidade do Movimento de Schoenstatt vem colecionando uma série declarações vergonhosas. A primeira feita um dia depois da primeira entrevista foi, ao menos, desastrosa ao atacar a reputação da historiadora. Em seguida, a ausência de uma voz única, que manifestasse a preocupação de esclarecer as circunstâncias e os fatos das acusações de abuso contra o Pe. José Kentenich, levou vários membros do próprio Movimento a questionarem o grau do obscurantismo no qual a oficialidade se move. Ao mesmo tempo, é decepcionante a falta de uma palavra de solidariedade para com as vítimas.

Há poucos dias, o bispo da Diocese de Tréveris, Dom Stephan Ackermann, publicou a resolução de que o processo de beatificação do Pe. José Kentenich não será reavaliado por outra comissão histórica, mas por uma equipe multidisciplinar. Com isso, o bispo diocesano está sinalizando claramente, ao contrário da oficialidade do Movimento e, principalmente, das Irmãs de Maria, que não pretende manter o tema na escuridão. Uma comissão histórica de um processo de beatificação está obrigada a manter sigilo sobre seu trabalho; uma equipe interdisciplinar, não.

Após a publicação da resolução, Dom Stephan Ackermann concedeu uma entrevista ao site paulinus.de, na qual mencionou um caso de acusação de abuso sexual que teria sido cometido pelo Pe. José Kentenich não contra uma Irmã de Maria – como o caso apresentado no volume um de “Vater darf das” –, mas contra um cidadão norte-americano durante os anos em que residiu em Milwaukee.

O processo canônico, como pode ser entendido pela entrevista, foi aberto na Arquidiocese de Milwaukee/ EUA. A situação foi informada em seguida à Diocese de Tréveris/ Alemanha, onde o processo de beatificação já corria.

Na publicação “Informações da Presidência Internacional da Obra de Schoenstatt” de 10 de março, fica claro que a oficialidade do Movimento soube do caso em 1997. Estava, contudo, obrigada a manter sigilo sobre o mesmo já que o processo canônico corria na Arquidiocese de Milwaukee.

Ninguém deve exigir, portanto, que a Presidência Internacional deva ter noticiado o fato. Isso é claro! Contudo, o texto de 10 de março, em nenhum momento, manifesta o mínimo de autocrítica diante da postura obscurantista e um sinal de empatia para com a vítima, desta vez um cidadão norte-americano que ainda está vivo, e sua família.

Ao ler o texto, só uma percepção fica: o obscurantismo ainda reinará por muito tempo na oficialidade do Movimento e o falso messianismo a impedirá de enxergar seu fundador não como um “deus”, mas como um ser humano como todos os demais.

Ao ler o texto, só uma percepção fica: o obscurantismo ainda reinará por muito tempo na oficialidade do Movimento e o falso messianismo a impedirá de enxergar seu fundador não como um “deus”, mas como um ser humano como todos os demais. Um ser humano sujeito a falhas, o que, em nenhum momento, significa que seja menos santo. A atitude e as ações de defender a todo custo o Pe. José Kentenich são um péssimo favor a seu processo de beatificação e ao próprio Movimento.

Finalmente, é preciso concluir esta reação ao ultrajante texto da Presidência Internacional mostrando que a falta de empatia para com as vítimas não tem mais lugar na Igreja. Querer acusar e buscar justificativas pseudo-psicológicas para as vítimas não é outra coisa senão desprezá-las ainda mais. Vítimas serão sempre vítimas! Não importa se seja por má interpretação ou por qualquer outra circunstância; uma vítima tem que ser acolhida, ouvida e, no possível, retribuída.

Obscurantismo sustentado por um falso messianismo e falta de empatia para com as vítimas não têm nada de evangélico. Não pertence ao anúncio da Boa Nova do Reino de Deus levada a cabo por Jesus de Nazaré.

Não dizer nenhuma palavra para o cidadão norte-americano que acusou em 1994 o Pe. José Kentenich de abuso sexual – assim como até o momento a oficialidade não se manifestou em nenhuma de suas notas e publicações para com as ex-Irmãs de Maria que também o acusaram na metade do século passado – é, pelo menos, cruel. Obscurantismo sustentado por um falso messianismo e falta de empatia para com as vítimas não têm nada de evangélico. Não pertence ao anúncio da Boa Nova do Reino de Deus levada a cabo por Jesus de Nazaré.


As opiniões expressas nos artigos de opinião são da exclusiva responsabilidade daqueles que as expressam e não representam necessariamente o pensamento da equipa editorial de schoenstatt.org. 

 

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