Colocado em 2021-03-06 In Artigos de Opinião, Vozes do Tempo

Escolher e defender a vida é uma obrigação, uma lei dada por Deus a seu povo

BRASIL, Pe. Matheus Bernardes •

Neste sábado, 06 de março, o grupo “Padres da Caminhada” publicou uma nota sobre a trágica situação enfrentada pelo Brasil pela pandemia da COVID-19. –

“Padres da Caminhada” é um grupo de padres diocesanos e religiosos, atuantes em diversas dioceses do Brasil, que se guiam pela visão de Igreja do Papa Francisco: uma Igreja missionária, dos pobres e para os pobres.

A nota foi encaminhada à redação de schoenstatt.org pelo Pe. Matheus Bernardes da Arquidiocese de Campinas/ SP.


NOTA SOBRE A MAIOR TRAGÉDIA
DA HISTÓRIA RECENTE DO BRASIL

“Hoje tomo o céu e a terra como testemunhas contra vós:
eu te propus a vida ou a morte, a bênção e a maldição.
Escolhe, pois, a vida, para que vivas tu e tua descendência.”
(Dt 30,19)

Escolher e defender a vida, sobretudo a das e a dos mais vulneráveis, não é uma opção. É uma obrigação, uma lei dada por Deus a seu Povo! Aquelas e aqueles que estão à frente do Povo não podem se esquivar dessa tarefa primordial.

O Brasil vive dias de luto e tristeza: desde o final do mês de fevereiro passado o número de mortes diárias causadas pela covid-19 está acima de 1000 e, infelizmente, a tendência aponta superação de 2000 mortes por dia em breve. Além do mais, salas e corredores dos hospitais, centros de saúde e pronto-atendimentos públicos e privados estão repletos de pacientes que lutam pela vida.

Profissionais da área da saúde – médicas e médicos, enfermeiras e enfermeiros, todas as trabalhadoras e os trabalhadores de administração, manutenção e limpeza das casas de saúde – mostram coragem e clamam que o Brasil não está perdendo números; são mulheres e homens, crianças, idosos e jovens, que pelo descaso das autoridades têm suas vidas abreviadas.

O desdém demonstrado pelo Presidente da República e as autoridades com ele alinhadas é revoltante. Isso gera entre nós indignação ética e deve ser juridicamente punido!

Enquanto a população mundial mostrava que o único caminho para prevenir a tragédia era o respeito ao uso da máscara, a higienização das mãos e, sobretudo, o distanciamento social, o Sr. Jair Bolsonaro insistia em promover aglomerações populares, questionar a eficácia do uso da máscara e negar os dados da ciência.

Com o passar dos meses, a população, muito estimulada pela irresponsabilidade dos governantes, relaxou com os cuidados. Os números também indicariam que a primeira onda de contágio estaria passando. Isso foi motivo suficiente para aglomerar nas festas de fim de ano e nos meses de verão. Infelizmente, o Brasil está vivendo a triste repercussão dessas ações hoje e o que foi visto em Manaus, no mês de janeiro passado, começa a se repetir em outras cidades: o Brasil está sufocando.

Único caminho viável para superar a tragédia, a vacina tem sido usada vilmente para alimentar a guerra política entre o governo federal e os governos estaduais e entre os poderes da República. Como se não bastasse a tragédia causada pelo vírus, a população brasileira ainda tem que assistir perplexa a vergonhosa luta de poder entre seus governantes e representantes.

As elites políticas e econômicas do Brasil não escolhem e nem defendem a vida; escolhem e defendem o poder.

Inspirados pelas palavras da Sagrada Escritura, condenamos veementemente ações que têm por finalidade a manutenção dos privilégios do poder, enquanto a vida, especialmente a dos mais pobres e vulneráveis, é desprezada. É hora de escolher a vida!

O Papa Francisco, em seu magistério pontifício, não cansa de insistir em uma mudança radical para os dias de hoje: devemos cuidar uns dos outros e de nossa Casa Comum. É hora de ouvir o “grito dos pobres e do nosso planeta”, como ele mesmo proclamou no dia 27 de março de 2020, logo no início da pandemia.

Queremos nos solidarizar com todas as famílias que ainda choram a morte de suas avós e avôs, mães e pais, filhas e filhos. Lembramo-nos da frase carregada de esperança do livro do Apocalipse: “Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor e nem dor haverá mais.” (Ap, 21a)

Já são 65 Padres diocesanos que vieram a óbito desde o começo da pandemia. O número de Padres mortos pela covid-19 sobe ainda mais se somamos os religiosos. Expressamos solidariedade para com as famílias e as comunidades que perderam esses nossos irmãos. Acompanhamos com a oração a recuperação daqueles que foram infectados pelo vírus: só entre os Padres diocesanos são mais de 1400.

Solidarizamo-nos com aquelas e aqueles que lutam por suas vidas nos hospitais e centros de saúde, também com todas e todos os profissionais da saúde que trabalham, sem cessar, há mais de um ano. Desde nossas comunidades, sobretudo aquelas que estão nas periferias das grandes cidades e nos campos Brasil afora, estendemos nossas mãos aos que sofrem pela falta de trabalho e pão.

Unimos nossas vozes à das frentes e movimentos populares, das pastorais sociais e diversos organismos de nossas Igrejas, das várias instituições da sociedade civil, cientistas e pesquisadores para denunciar e reivindicar vida e dignidade. Exigimos vacina urgente para todas e todos, auxílio emergencial para as trabalhadoras e os trabalhadores desempregados, respeito e cuidado para com os povos originários desta terra e para com os pobres e o fim do ódio e dos muros que nos separam.

A esperança vem de Deus e vive em seu Povo. Nós somos esse Povo que, unido, caminha e sonha, em breve, superar a maior tragédia da história recente do Brasil. O momento é trágico, mas ressoam em nossos ouvidos e corações as palavras de Jesus a suas discípulas e seus discípulos:

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus.
Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados.
Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir.”

(Lc 6,20b-21)

Padres da Caminhada.

Carta Padres da Caminhada em pdf

 

Fotos: Marcelo Morais

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6 Responses

  1. Melissa diz:

    Por ser um texto de opinião acredito que parte se venha carregado de tendenciosismo. Visto que raras vezes emitimos opniões sem sermos influenciados por nossos pre/conceitos e nossas experiências e vivências individuais.
    Acredito ser reducionista a visão que o caos instalado no nosso país seja apenas a briga política, o descaso e desgoverno de um presidente narcísico e nada apto ao cargo, aos brigas de poder e de ego dos governantes (não apenas presidente e governadores mas prefeitos também!). Pois falamos de um país que sofre ha décadas com falta de investimentos na educação (isso não é herança deste ou do último governo), sofre com uma desigualdade socioeconômica, sofre com falta de investimentos em saneamento básico. Como gerenciar uma pandemia em um país com habitantes, território de em que ainda existem milhares de famílias que não possuem se quer água potável?
    Ao afirmar: “ Com o passar dos meses, a população, muito estimulada pela irresponsabilidade dos governantes, relaxou com os cuidados” acredito que se exime a responsabilidade da população justificando a mesma ser estimulada pelos governantes.
    Não concordo!
    Existem pessoas influenciaras neste meio, claro!
    Da mesma forma que existem pessoas influenciadas pelos cientistas e pelo exemplo de diversos países que adotaram a linha da vacina / distanciamento e isolamento social como educação no controle e na contenção da pandemia.
    Agora a grande maioria da população que insiste em se aglomerar em festas, bares ou até churrasquinhos não casa dos amigos no sábado à tarde, não fazem parte deste influenciamos não!
    Fazem parte de uma população contaminada por anos de ignorância, falta de inteligência emocional para compreender a empatia e que não entendem que em saúde coletiva (mais ampla que a saúde pública) o grupo se sobrepõe ao indivíduo. E sim, a liberdade muitas vezes precisa ser cerceada por um período para que se possa preservar o maior número de vidas.
    A questão é bem mais complexa e densa, requer uma análise mais seria que vai além das questões do governo. Mas não exclui as questões do governo.
    A realidade brasileira que vivemos foge da realidade da maioria dos países que demonstraram sucesso até agora na batalha contra a COVID-19.
    Até mesmo nas metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiros temos famílias de 10/12 pessoas morando em um cômodo (as vezes até mais). Sem espaços para isolamentos. Que dirá possibilidade de aquisição de álcool ou máscaras.
    Não temos uma cultura de autocuidado que dirá de cuidado coletivo.
    Infelizmente poderia estar os melhores governantes a frente de cidades, estados e do país, sem brigarem e gerenciando com excelência está pandemia, ainda assim o caos estaria nas ruas.
    Pois os frutos da educação, do saneamento básico e de uma medicina preventiva, não aparecem em meses e nem em um ano.
    No mais, coloco-me em oração por todos os padres que nossa Igreja vem perdendo para está triste doença. E também por todas as famílias que estão passando por este momento de imensa dor e luto.

    • A análise que faz a Melissa baseada em factos verdadeiros da história do Brasil e do perfil da esmagadora maioria dos brasileiros é bastante acertada e crua. O mal não é de agora. Infelizmente, o Bolsonaro não tomou o poder de assalto, foi votado e eleito por maioria do povo. Esta eleição insere-se num longo caminho de escolhas mal feitas ao longo de décadas, até porque o sistema eleitoral brasileiro é extremamente confuso e, com uma população de tão baixa instrução e cultura é normal que votem sem saber o que estão a fazer,votam na emoção e por obrigação. Eu estava no Brasil quando da campanha eleitoral de 98 e vi, em plena Televisão, o Maluf dar um murro na mesa e dizer” que eu roubo roubo, mas faço” roubava mas tinha obras feitas. E era eleito. O Bolsonaro levou um tiro, foi compensado com a eleição. Galbraith há muitos anos escreveu um livro A sociedade da pobreza em que analisa o porquê de certos países serem endemicamente pobres tendo tantas riquezas naturais e outros como o caso da Suíça que tem montanhas, pedras e vacas serem ricos e desenvolvidos. Infelizmente, parece ser um ciclo vicioso do qual não se sai do día para a noite. Sofro com o sofrimento do povo brasileiro mas não sei se tirando o Bolsonaro , só por si, resolvem os problemas que estão enquistados por décadas e décadas de rumo errado.

      • * diz:

        Penso que nem a Melissa, nem você entenderam muito bem a nota publicada: sim, há um momento de denúncia, porém o mais importante é a mensagem de companhia – e esperança! – para com os e as que sofrem e o clamor por saúde e vida. Esse é o centro do texto.

        • Melissa diz:

          Caro/a *
          Em momento algum anulo a denúncia e a validade de ações para acompanhar os que mais estão impactados diante deste caos.
          Até onde entendo, meu comentário se ateve ao fato do artigo de opinião pessoal (assim como minha resposta também ser fruto de opinião pessoal) “denunciar” as ações equivocadas e de consequências mortíferas da população, exclusivamente como consequência do (des)governo a que estamos impostos. É isso para mim é raso.
          Em meu comentário contextualizo o perfil de nosso presidente (narcísico e inapto ao cargo que ocupa) e também chamo atenção a participação do jogo do poder e ego que vivemos (ressalto – não é exclusividade do Brasil isso!).
          Só acredito que aqueles que levantam bandeira ao caos que vivemos expondo apenas o governo (aqui Lemos em todas as esferas) é sim raso e prejudica uma real dimensão do problema brasileiro. Não contesto de forma alguma a intenção de engajamentos para acolhimento e acompanhamento àqueles que sofrem nesta pandemia.
          Mas, se está era a ideia, ao analisar o artigo, o foco desvirtuou-se, ao dedicar mais de metade do texto a estas “denúncias”.
          Reafirmo – em momento algum falo da incongruência destas “denúncias” mas sim do fato destas questões serem apenas a pontinha do iceberg. Para aquele que prefere ficar na ponta – na superficialidade da realidade brasileira – é o artigo certo.

      • Lena Castro Valente diz:

        Sofro com o sofrimento do povo brasileiro. Está no meu comentário. Mas não vi o nome de quem comentou. Temos assim duas pessoas erradas e uma certa

        • Melissa diz:

          Realmente não concordo com este estímulo de publicações anônimas… por estas e outras que a mídia se infestou com conflitos e Fake News.
          Isso não é liberdade – pessoas que não se responsabilizam por seus comentários.
          Toda liberdade vem junto com responsabilidade. Do contrário estaríamos diante da libertinagem.
          Quando coloco meu nome dou nome às minhas palavras (salvo quando se trata de citações de domínio popular – o que implica uma referência ao domínio) e desta forma me responsabilizo pelas mesmas. Assim também demonstro respeito a todos os envolvidos mesmo que esteja com um posicionamento discordante.
          Mas aqui me coloco responsável e respeitosa a quem quer que venha ter acesso ao meu comentário.
          Mais que covardia, pronunciamentos anônimos não deixam de desrespeitar não apenas a quem escreveu mas a qualquer um que venha ler.
          Vejo como uma escolha e um estágio de maturidade.
          Quem solicita anonimato não respeita e nem reconhece os demais envolvidos.
          Sendo suas palavras de apoio ou de inquietação.
          Há que se responsabilizar e nomear suas palavras para que se faça respeitoso.
          Permanecemos rezando por todos que estão afetados por esta pandemia física e ética.

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