ni reyes ni magos

Colocado em 2021-02-11 In Artigos de Opinião

Nem reis nem magos: radicalmente nós

ARGENTINA, Juan Molina •

Ao iniciarmos um novo ano, enquanto tentamos crescer a partir do que Deus nos presenteou no passado ano de 2020, aqui estão algumas pistas para orientar nosso seguimento de Jesus e nosso ser cristão no cenário complexo de 2021. —

Desmontar o presépio

O final do período do Natal nos oferece uma poderosa metáfora para o início deste novo ano cheio de desafios. A tradição – não a única – indica que com este fim faz sentido desmontar o presépio. Graças ao presépio montado, tivemos dias para sermos tocados pelo recém-nascido, para aproximar muitas pessoas de algo religioso, para experimentar a proximidade protetora de Deus e também – deve-se dizer – para comparar algumas criações com outras. Em muitos de nossos países os presépios também ganham espaço em lugares públicos e comerciais, como praças e shoppings. Uma vez desmontado o presépio, aquele canto da casa, do templo ou da cidade que nos levou a Belém é hoje uma prateleira vazia, um piso frio ou um jardim verde maior.

A questão paira sobre o espaço físico e o coração: o Natal acabou… e agora?

Eu me apresso para responder: é hora de seguir. Porque a vida não consiste e não é sustentada pelos acontecimentos, mas sim pela fidelidade diária, inclusive o que passa desapercebido. Não podemos viver no presépio, embora possamos e precisemos viver a partir do presépio. O presépio – montado e desmontado – oferece uma pedagogia de vida (cristã).

Como viver o seguimento de Jesus com tanto vento contrário

Na Argentina, como também mais tarde em outros países do continente, a época natalina coincidiu vilmente com o avanço das leis que atentam contra o fundamento humano: a vida como ela vem. Sabemos que a aprovação da interrupção voluntária da gravidez (eufemismo trágico para o aborto) coloca em questão aspectos que são primeiramente mais humanos do que cristãos. Mesmo assim, é natural que o modo de ser cristão seja desafiado por uma estrutura legal que desumaniza e, portanto, afeta nossas crenças.

Pessoalmente, tenho a impressão de que esta lei consolida um caminho no qual os valores centrais do cristianismo são deixados à deriva, sem a proteção legal. Portanto, se nas gloriosas origens de nossos países os valores fundamentais protegidos e expressos pelas leis emanavam da tradição judaico-cristã, hoje em dia é cada vez menos assim. Parece que se repete um processo que tem mais história em certos países europeus. A pergunta compartilhada por muitos – e confesso que tem repercutido em mim especialmente quando a origem do questionamento é de jovens – é como viver o seguimento de Jesus com tantos ventos contrários. Além do fato de que alguns podem exagerar um pouco ao comparar esta época com a época da perseguição, é inegável que hoje nossos ambientes urbanos, pelo menos, não facilitam o religioso. Em outras palavras, como podemos viver nossa vida cristã com o presépio desmontado?

Vale observar que o espaço oferecido pela origem judaico-cristã como uma tradição homogênea está sendo disputado por ideologias, correntes da época e oportunismos. Certamente podemos compartilhar diferentes visões e descrições do que está por trás disso, mas gostaria de descrever algumas delas. Considero que o saudável sistema econômico capitalista se tornou a lógica determinante para a criação de nossa sociedade. Opera transformando valores econômicos em bandeiras e princípios econômicos em princípios religiosos. Vejo isso na exaltação do consumo e da posse como um dogma de fé. “A ideologia neo-darwinista da sobrevivência do mais forte, sustentada por um mercado sem controle, obcecado pelo lucro e pela soberania individual, permeou nossa cultura e endureceu nossos corações” [1]. Desta forma, considero que a exaltação de um certo liberalismo levou a um individualismo que não nos permite olhar, muito menos questionar, o conjunto comum da sociedade ao ponto de “os outros se tornarem meros obstáculos à nossa própria tranquilidade prazerosa” (FT222).

Por outro lado, gostaria de oferecer algumas visões sociológicas. Alessandro Baricco me fez entender a profundidade da transformação do homem na revolução tecnológica. As inúmeras possibilidades que a tecnologia oferece colocaram o homem “em palcos que sempre pensaram estar reservados a outros por edital sobrenatural”[2]. Tornamo-nos todo-poderosos. Nesta linha, o diagnóstico do filósofo coreano-alemão Han sobre o tempo presente ressoa em mim: é o tempo da positividade, onde tudo é possível. Se tudo é possível, devemos ter sucesso em tantos projetos quantos os que colocamos à nossa frente[3].

Em síntese, é o triunfo do indivíduo sobre o comum; ou pior, é a derrota do comum nas mãos da absolutização do consumo, da realização individual, da possibilidade individual e da afirmação individual. O presépio foi desmontado, mas não percamos de vista a pergunta-chave: como podemos seguir Jesus neste tempo? Voltemos ao presépio, não para nos instalarmos, mas para aprender.

Os Reis Magos e nós

Voltando ao presépio, nesta época de Natal, fiquei impressionado com as figuras dos Reis Magos. Eles foram as últimas testemunhas e, talvez sem sabê-lo, os primeiros missionários. Neles e com eles nós chegamos ao presépio. Aqueles de nós que vêm de além do povo escolhido. Aqueles de nós que não são pastores. Contemplar este nascimento a partir da figura deles nos lembra que a Boa Nova não é para os seletos ou para um determinado grupo e nos convoca a fazer que a vinda e a presença de Deus em nosso meio seja boas notícias para todos.

Hoje e neste contexto seria um erro se retirar. Renunciar a esta universalidade seria ir contra nossa identidade como católicos (cf. Mt 28,18-20) e ainda mais como schoenstattianos. No final, “em todos os momentos da história, a fraqueza humana, a busca insalubre do eu, o egoísmo confortável e, em suma, a concupiscência que nos persegue a todos estão presentes…. Portanto, não digamos que hoje é mais difícil; é diferente” (EG263). Os reis magos também trazem dentro de si uma contradição: a rigor, eles não eram nem reis nem magos. Detrás deste esclarecimento, encontro uma boa pista para nós.

Necessita-se santidade, não management

No início deste novo ano, devemos evitar a tentação de identificar o seguimento de Jesus ao sermos como reis. É a tentação e a nostalgia do poder desde o primeiro homem (cf. Gn 3,5) até nossos dias. “Nas comunidades cristãs (paróquias ou grupos) a lamentação… de que somos poucos nasce do fato de que acreditamos em nosso poder… e não no poder de Deus”[4].  Bento XVI profeticamente antecipou isto antes de se tornar Papa: “O que a Igreja precisa para responder sempre às necessidades da humanidade é de santidade, não de management[5]. Neste sentido, não é decisivo que o cristianismo perca sua força na arena pública ou que tenha cada vez menos apoio nas leis civis ou menos influência nas altas esferas do poder. Sem ignorar o quanto isso pode ajudar, é claro que esta não é a questão central. “Nossa firmeza só é firmeza quando está em ti; mas quando depende de nós, então é debilidade.”[6], disse Santo Agostinho. Podemos esperar que as circunstâncias atuais sejam propícias para iniciar um seguimento renovado a partir do centro, de Jesus Cristo?

Por outro lado, no início deste novo ano, devemos evitar a tentação de identificar os seguidores de Jesus como sendo magos, que cumprem certas prescrições e que, “abracadabra”, tornam-se cristãos. Os tempos atuais de crise e de mudanças são um terreno fértil para este tipo de pensamento mágico que é sustentado pela repetição de certos slogans ou pelo cumprimento formal. São – e somos – rígidos porque, diante da incerteza, procuram – e procuramos – agarrar-se a algo. Honestamente, nunca deixo de me surpreender com o florescimento de certos grupos tradicionalistas capazes até mesmo de questionar sua comunhão com a Igreja por causa da ênfase excessiva de certas fórmulas. A observância culposa de certos preceitos morais ou legais pode ser promovida como uma fórmula para ser cristão. “Tal rigidez na observância de coisas superficiais não é cristã. É puro pelagianismo, herético. O amor verdadeiro nunca é rígido”[7]. Ouvimos frequentemente o princípio “regras mínimas, liberdade na medida do possível e, acima de tudo, um alto cultivo do espírito”. Penso que é precisamente disso que se trata. Podemos esperar que as circunstâncias atuais sejam propícias para iniciar um seguimento renovado impulsionado pela força do amor magnânimo que brota das consciências?

Admito que neste tempo tem sido difícil para mim superar certas polarizações. Pessoalmente, teria preferido levantar mais ideias ou valores do que bandeiras. Também me surpreendeu como, dentro daqueles de nós que seguem Jesus, desta vez críticas cruzadas foram despertadas, como se alguém tivesse a verdade absoluta e o outro fosse um canalha absoluto. As discussões nos polarizam e não só nos obrigam a nos confrontarmos entre conservadores e progressistas, mas também nos forçam a rejeitar tudo o que vem do lado oposto. Entretanto, “muitos esquecem que o conceito conciliar oposto ao ‘conservador’ não é ‘progressista’, mas sim ‘missionário'” [8]. Em nosso ser missionário, uma disputa anacrônica é quebrada e o foco é colocado no lugar certo, no nosso ser autêntico: nem reis nem magos, nem conservadores nem progressistas; discípulos missionários de Cristo, continuadores de sua missão (EG120). Pela mesma razão, temos que começar este ano menos derrotistas[9] (que colocam nosso triunfo ou nossa derrota demais no centro), menos culpados (que colocam nossa virtude ou nosso pecado demais no centro), menos conservadores (que colocam a conservação no centro) e menos progressistas (que colocam a ruptura com tudo no centro).


 O seguimento de Jesus neste ano de 2021

Podemos agora nos perguntar: o que isso tem a ver conosco e com nosso seguimento pessoal de Jesus Cristo, com nosso ser cristão? Depois de tanto desenvolvimento, gostaria de destacar arbitrariamente áreas, como ferramentas concretas, para cultivar nosso seguimento de Jesus, nosso ser cristão neste novo ano.

Em primeiro lugar, penso que será cada vez mais importante fortalecer as instâncias de viver a fé na comunidade. Espontaneamente, somos levados a afirmar que o novo homem está na nova comunidade. Devemos tomar isto como uma verdade mais existencial do que metafísica. A fé está com os outros e se sustenta mais na vida diária compartilhada do que em façanhas quixotescas. “A fé cristã não parte do indivíduo atomizado, mas da convicção de que o indivíduo puro não existe, que o homem é ele mesmo quando se fortalece no todo, na humanidade, na história, no cosmos, o que é essencial para ele como espírito no corpo”[10]. Neste espírito, seria bom rever e dar prioridade às instâncias comunitárias que temos que viver nossa fé no dia a dia.

Em segundo lugar, talvez seja óbvio afirmar a necessidade de uma vida intensa de oração capaz de preencher nossa vida diária com sentido. Entretanto, acredito que é cada vez mais importante crescer em uma oração que leve a um encontro com o Deus de tudo o que estamos vivendo e buscar um encontro com Deus em tudo o que estamos vivendo. É uma oração mais de contemplação, que busca a presença de Deus no dia a dia atrás dessa insignificância, sabendo que a angústia é transitória e a glória é eterna; que o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno (cf. 2Cor.4,17-18). Se não existe, parece-me que deveríamos criar uma devoção a “Nossa Senhora de todos os dias”, para que ela nos ajude a louvar a Deus em todos os momentos (cfr. Sl 33). Também podemos perguntar isto a Nossa Senhora da Candelária, que celebramos no dia 2 de fevereiro.

Dizer Não para poder dizer Sim

Em terceiro lugar, tenho a intuição de que a vida cristã nestes tempos tem a ver com a capacidade de frear certas pretensões que, em si mesmas, podem não ser más, mas que a longo prazo nos levam a um caminho de insuportável auto-exigência, a viver em uma lógica de desempenho esgotante e consumo desenfreado. “Quando já alcancei uma meta, quando revelei a chave, quando vim a conhecer o desconhecido. Se algo impossível foi deixado para trás e o que era estranho é habitual. Meu interesse desapareceu de repente. … E eu sempre quero mais, um insaciável”[11]. Só podemos responder a isto exercitando-nos na capacidade de dizer não. A princípio pode ser um pouco estoicismo, mas a longo prazo é de se esperar que dizer “não” nos ajude a dizer “sim” ao que eu sou, ao que tenho, ao que posso. É dar mais espaço à gratidão pelo que sou e pelo que existe, do que ao reclamar do que está faltando. É ter em mente aquele princípio de Paulo quando afirma: “Tudo é permitido, mas nem tudo é conveniente. Tudo é permitido, mas nem tudo é edificante” (1Cor.10:23). E desta forma estar pacificado (o que não é o mesmo que resignarmo-nos).

Finalmente, em meio a tantos desencontros dos quais tomamos nota, sonho que em 2021 nos encontremos com tantos concidadãos de boa vontade e que fazem tanto bem, especialmente no cuidado com os mais vulneráveis, em um trabalho ativo para a humanização da vida compartilhada, e assim, contribuir para um humanismo autêntico que transcenda até mesmo os limites da própria religião. O cristão não é aquele que aceita um sistema de normas e pensa nelas em relação a si mesmo, mas aquele que se libertou para buscar a bondade simples e humana”[12]. Para isso, as normas não importam tanto. Talvez esta seja a demanda final da pandemia: “um novo humanismo que possa canalizar esta irrupção da fraternidade para colocar fim à globalização da indiferença e à hiperinflação do indivíduo”. A figura pouco conhecida de Neemias pode ser um bom guia para isso.

Responsáveis e conscientes de nossas possibilidades, que este ano de 2021, de mãos dadas com a Mãe de Deus, nos encontre renovando nosso seguimento de Jesus Cristo.

reyes magos


[1] Cfr. Francisco. “Vamos sonhar juntos”.  Intrínseca (2020) Terceira parte
[2] Baricco, A. “The Game”. Ed. Anagrama (2019) p.218
[3] Cfr. Han, B. “Sociedade do cansaço”. Ed Herder (2012)
[4] Martini, C. “Una voz profética en la ciudad”. PPC (1995)
[5] Ratzinger y Messori. “A fé em crise?”. Epu Ano (1985)
[6] Santo Agostinho. “Confissões” Livro IV
[7] Francisco. “A força da vocação”. Ed. Paulinas (2018)
[8] Ratzinger y Messori. “A fé em crise?”. Epu Ano (1985)
[9] Cfr. Francisco. Vamos sonhar juntos”.  Intrínseca (2020) Segunda parte
[10] Ratzinger. “Introdução ao Cristianismo”. Lucerna (2017).
[11] El cuarteto de Nos. “Insaciable”
[12] Ratzinger. “Introdução ao Cristianismo”. Lucerna (2017).

 

Original: Espanhol (6/2/2021). Tradução: Luciana Rosas, Curitiba, Brasil


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