Colocado em 2019-12-22 In Artigos de Opinião

Encarnação, comunhão multiforme, descentralização na unidade sinodalidade

CHILE, Ignacio Serrano del Pozo •

Em Outubro de 2019, realizou-se em Vallendar, Alemanha, o Congresso Teológico “Federatividade, descentralização e sinodalidade”, como forma de reflectir sobre os 100 anos de Hoerde e a estrutura federativa do Movimento Apostólico de Schoenstatt.  Um dos principais convidados deste evento foi o pensador jesuíta, Pe. Juan Carlos Scannone, que influenciou significativamente o Papa Francisco a partir da sua Teologia do Povo, do qual ele também foi professor.  Em 27 de Novembro, a triste notícia da morte do renomado teólogo argentino foi conhecida, por isso a conferência oferecida naquela ocasião foi uma das suas últimas intervenções públicas.—

Oferecemos aos leitores de www.schoenstatt.org um trecho do rico discurso do Pe. Scannone, que começa – aliás – com uma recordação da sua participação, em 1985, no seminário dedicado ao centenário do Pe. Kentenich

Prof. Dr. Juan Carlos Scannone, SJ

A Igreja: povo de Deus com muitas faces, inculturação do evangelho e descentralização da Igreja

Em 1985 tive o prazer de participar, aqui em Vallendar, num encontro em homenagem ao Pe. Kentenich, durante o qual o meu amigo, Pe. Joaquín Alliende, me fez visitar as diversas colinas e me explicou a configuração federativa de Schoenstatt. A minha impressão foi que me encontrei diante de uma comunhão de praticamente todas as vocações e missões da Igreja, em miniatura, incluída a Província das Irmãs, dedicada à vida contemplativa. Pois existiam Institutos Seculares de consagrados e consagradas de diversos tipos, os Padres de Schoenstatt, as Irmãs e Irmãos de Maria, sacerdotes diocesanos, leigos e leigas celibatários que vivem em comunidade ou com as suas famílias, casais, etc., passando de um núcleo mais central para diferentes círculos concêntricos, ou seja, destes Institutos para Uniões, Ligas, e um número incontável de simpatizantes e peregrinos. Contemplando este Movimento hoje, à luz do pontificado de Francisco, vejo-o como um pré-anúncio de muito do que ele propõe para a Igreja e até para o mundo: encarnação kenótica (no nosso caso, do Evangelho) (Kenosis –  doutrina do esvaziamento do logos divino NT), comunhão  multiforme, descentralização na unidade, sinodalidade.

Pois bem, este Congresso está a ser realizado sob um lema que evoca a Nova Aliança (Bund – em alemão NT) de Deus connosco e entre nós em Deus, concretizada como um exemplo (Beispiel – por exemplo em alemão NT) na Aliança Apostólica de Schoenstatt, e deseja aprofundar as suas raízes históricas e teológicas. Cabe-me aprofundar os fundamentos teológicos das três características da Igreja hoje enfatizadas pelo Papa Francisco e simbolicamente espelhadas na livre organização federativa de Schoenstatt, isto é:

1) ser um único povo com muitas faces,

2) a correspondente inculturação do Evangelho, e

3) a consequente descentralização na comunhão sinodal. Cada parte da minha apresentação será dedicada a uma destas três características essenciais da Igreja, que, neste pontificado, se tornaram mais relevantes. […]

Des-centralização da Igreja em comunhão sinodal

Segundo o Cardeal de Havana, que foi decisivo para a eleição papal de Bergoglio foi o discurso que proferiu no encontro antes do Conclave, no qual não só criticou toda a auto-referencialidade da Igreja, mas propôs uma Igreja em saída, em conversão pastoral, evangelizadora, missionária, seguindo a linha já traçada pelo Concílio e promovida por Aparecida. Uma forma de a caracterizar é com o substantivo “des-centralização”. Pois o próprio Francisco, na Evangelii Gaudium, falando da “conversão do papado” (EG 32), afirma: “Uma centralização excessiva, mais do que ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária” (Ibidem), como ele mesmo havia experimentado na própria carne como chefe de uma Igreja particular e de uma Conferência Episcopal.

No entanto, no contexto em que este termo é usado, a descentralização deve ser interpretada, não como, contradizendo a comunhão e a sinodalidade, mas como, o seu complemento, em potenciação recíproca. […]

O modelo do poliedro

O Papa Francisco gosta de usar as suas próprias metáforas para falar sobre a Igreja: hospital de campanha, poliedro, sínodo (caminhar juntos), pirâmide invertida, etc. Estas três últimas expressões contrastam tanto com a uniformidade como com a fragmentação, e mostram a unidade na diferença, de acordo com as suas raízes trinitárias e a sua estrutura de encarnação.

Assim o Santo Padre, referindo-se à Igreja – povo fiel de Deus -, a cada nação da terra e a todos os povos, usa a imagem do poliedro (EG 236). Assim, quando ele aplica a estes três casos o princípio “o todo é mais que a parte, e também é mais que a soma deles” (EG 235), ele afirma:”O modelo não é a esfera, que não é superior às partes, onde cada ponto está equidistante do centro e não há diferenças entre eles. O modelo é o poliedro, que reflecte a confluência de todas as partes que nele conservam a sua originalidade”. (EG 236) Portanto, não só rejeita uma figura perfeitamente centrada em si mesma, como a da esfera, mas, com a do poliedro, refere-se a uma unidade superior e multiforme, na qual as diversidades e oposições polares mantêm e aumentam o seu próprio valor específico. Dependendo do caso, aplica-se às pessoas singulares dentro da comunidade de um povo; aos diferentes povos numa globalização que os respeite; e ao Povo de Deus, com a diversidade dos seus carismas e missões, encarnado em diferentes culturas em diálogo intercultural. Mas, como é um processo no caminho da história, completa esta figura estática do poliedro, a do sínodo, palavra cujo significado é “caminhar juntos”; pois em grego “hodós” significa “caminho” e “syn” significa “com”. Nesta caminhada conjunta, às vezes o pastor vai à frente do rebanho e outras vezes no meio ou atrás dele (cf. EG 31). E é todo o povo que caminha: pastores, religiosos e religiosas, leigos e leigas de ambos os sexos, idosos, adultos, jovens e crianças, cada um com a sua vocação, missão e função, para o bem comum de toda a Igreja e da Humanidade que servem.

É por isso que os sínodos, desde o nível universal ao local, caracterizam e devem caracterizar a Igreja, especialmente a Igreja do futuro. […]

A Igreja como uma pirâmide invertida

Outra imagem usada por Francisco completa as figuras anteriores: a da pirâmide invertida, coerente com o que foi dito sobre a comunhão recíproca entre “todos”, “alguns” e “um”. A sua base – que está no topo – é o povo fiel de Deus nos seus leigos; e o Pastor, a começar pelo Pastor universal, constitui o seu vértice, colocado em baixo, porque, tal como Cristo ao lavar os pés dos apóstolos, ocupa a humilde posição de quem está ao serviço dos seus filhos e dos seus irmãos: a denominação papal já o diz como servus servorum Dei (servo dos servos de Deus). […]

Do mesmo modo, tanto cada Igreja ou Diocese particular, como cada Paróquia, devem também ser conformadas como pirâmides invertidas, tendo o respectivo pároco como vértice inferior ao serviço da sinodalidade no amor. […]A implementação pastoral da kenosis (esvaziamento) descentralizadora  de si própria, da sinodalidade eclesial e do seu modelo na figura do poliedro entendido dinamicamente, deve ser mostrada numa pastoral de conjunto. Mais de 50 anos depois da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano em Medellín, podemos dizer que, em geral, no nosso continente, segundo as regiões e as áreas, foram feitos progressos neste ponto, mas que ainda há um longo caminho a percorrer para alcançar o que essa conferência defendeu no seu documento sobre o assunto. […]No entanto, devemos ainda – na minha opinião – realizar plenamente em toda a nossa América o que este documento promove, ou seja, que as comunidades cristãs de base sejam o “primeiro e fundamental núcleo eclesial”, “célula(s) inicia(is) de estruturação eclesial”, “foco(s) de evangelização” e “actualmente o(s) factor(es) primordia(is) da promoção e desenvolvimento humano” (Medellín 10); assim também, que as paróquias sejam um “conjunto pastoral vivificante e unificador das comunidades cristãs de base” (Medellín 13). Pois é missão das paróquias levar “à unidade todas as diversidades nelas encontradas e inseri-las na universalidade da Igreja” (Medellín 13). É assim que o documento pede que a comunhão seja vivida desde as comunidades de base, passando pelas paróquias, pelas dioceses, até as Conferências Episcopais, o CELAM e a Igreja universal, pré-anunciando o presente desejo de Francisco de uma Igreja sinodal, cuja pastoral é também sinodal, ou de conjunto, segundo a imagem da Trindade.

Mas isto só pode ser conseguido quando cada um e cada grupo se des-centre, morrendo para o seu “próprio amor, vontade e interesse”, para ressuscitar para uma vida des-centrada que possa reavivar a comunhão nas diferenças de um Pentecostes sempre novo.

Pe. Heribert King no congresso

Foto principal: Pe. Juan Carlos Scannone SJ, com Cecilia Sturla, professora de filosofía argentina, do Instituto das Familias

Original: espanhol (18/12/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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