Colocado em 13. Setembro 2019 In Artigos de Opinião

A vocação laical

José María Fuentes, Chile •

Durante muito tempo na Igreja falou-se da vocação sacerdotal e da vocação religiosa, acentuando a escolha especial de Deus em relação a elas. Isto chegou a tal ponto que se disse que uma pessoa só tinha vocação quando se decidia por uma dessas opções. Muitas vezes, na prática, considerou-se que a vocação laical e a vocação conjugal correspondem ao “estado natural” das pessoas e não há nenhuma vocação especial por trás disso. —

A história de Zaqueu ilustra a vocação laical. Zaqueu, um publicano rico, quer ver Jesus e por isso sobe a uma árvore. Jesus vê-o e diz-lhe que quer ficar em sua casa. Zaqueu recebe-O com alegria e, como consequência do seu encontro com Jesus, toma a decisão de dar metade dos seus bens aos pobres e devolver quatro vezes mais do que defraudou àqueles que foram suas vítimas. A dinâmica desta passagem é particularmente interessante em pelo menos três aspectos. Jesus chama e interpela Zaqueu; pede-lhe que O receba, que O acolha. Zaqueu, que já estava aberto a Ele (queria vê-lo), acolhe-O com alegria. Como consequência deste encontro Zaqueu muda e isso tem um efeito directo na sua actividade no mundo (a sua actividade profissional e social). Ao contrário de Mateus (outro publicano a quem Jesus convida a segui-l’O como Apóstolo), a Zaqueu chama-o e convida-o a converter-se, permanecendo no seu mundo, mas mudando profundamente a forma como age nele. A conversão de Zaqueu implica decisivamente a sua actividade secular.

O Pe. Kentenich considera que existe objectivamente uma vocação laical e que é muito importante que a pessoa que é chamada a esta vocação tenha uma especial consciência da escolha que Deus fez dele.

Além disso, para o Pe. Kentenich a experiência de sentir-se particularmente escolhido e amado por Deus é uma experiência cristã central. Parte das disputas que teve com a hierarquia eclesiástica alemã a partir de 1949 centraram-se neste ponto: a necessidade que cada cristão (cada um de nós) tem de se sentir especialmente escolhido e amado por Deus; ser um filho predileto. Naturalmente, isto tem uma particularidade e uma força especial em relação à própria vocação.

Já nos anos 30 o Pe. Kentenich falou sobre a vocação laical. Fê-lo em ocasiões diferentes. Durante o ano de 1931 fê-lo de uma forma muito especial no retiro “Vocação Sacerdotal e Vocação Laical” que foi pregado por ele em Schoenstatt entre os dias 11 e 18 de Outubro. Ele assinala que os leigos são chamados a participar na missão de Cristo a partir de um chamamento divino (uma missão divina), que é parte essencial da vida da Igreja. Os leigos estão integrados na missão de Cristo nos seus três ministérios: sacerdote, profeta e rei (nos anos 30, o Pe. Kentenich usava a expressão pastor em vez de rei, que passou a ser usada a partir dos anos 50). Cada pessoa é chamada a ser, em Cristo, sacerdote, profeta e rei. Cada cristão é chamado a participar destes ministérios de modo particular, segundo a própria vocação que lhe foi dada por Deus.

Os leigos têm uma vocação própria. Através do Baptismo e da Confirmação, Deus está presente nas suas vidas para moldar todas as realidades do mundo, incluindo todos os aspectos das suas vidas diárias. Os leigos têm uma vocação especial para exercer o ministério sacerdotal, profético e real de Cristo no meio do mundo profano (o das realidades seculares). Fazer a vontade de Deus nesta área é uma parte central do seu chamamento.

O sacerdote é quem oferece o sacrifício. No Antigo Testamento, os sacerdotes ofereciam sacrifícios de animais em ritos de purificação. Cristo sacerdote oferece-Se a Si mesmo e n’Ele a toda a Humanidade e a todo o Universo. Como parte do seu Corpo Místico, todos os cristãos são chamados a participar neste ministério. Os leigos são chamados a oferecer os próprios sofrimentos, dificuldades e misérias da sua vida pessoal, familiar, laboral, social, etc., como sacerdotes em união com o Senhor. De modo especial, são também chamados a oferecer as dificuldades e os sofrimentos do mundo secular (trabalho, economia, política, organização social, etc.).

Carlo Carretto, membro dos Pequenos Irmãos de Jesus (da família espiritual de Charles de Foucauld), que antes era um alto dirigente  da Acção Católica Italiana, aprofunda e reafirma isto dizendo que “a tarefa sacerdotal, que é viver a vida de Jesus no seu dom absoluto ao Pai e oferecer ao Pai todas as realidades terrenas, torna-se o compromisso de todos os baptizados na unidade do Espírito Santo”.

O profeta é quem ensina, quem transmite ao mundo a Palavra de Deus. Ele é aquele que sabe interpretar os acontecimentos e dar-lhes o sentido que Deus quer deles. Todo o cristão é chamado a desempenhar esta função face ao mundo ao seu redor e face às pessoas que ele pode influenciar. O leigo é chamado a iluminar a realidade com a mensagem de Jesus; toda a realidade, mas sobretudo a realidade secular (ou profana). Como afirma Paulo VI na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, trata-se de “alcançar e transformar com a força do Evangelho os critérios de julgamento, os valores determinantes, os pontos de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da Humanidade, que estão em contraste com a Palavra de Deus e com o projecto de salvação”.

O ministério real do leigo consiste em participar na realeza de Cristo sobre o universo, colaborando com Ele na constituição do Seu Reino; reino da Verdade e da Vida. Como participantes do ministério real de Cristo, os leigos são chamados a ter uma relação particular com as pessoas, as coisas e o devir (o que acontece).

Tem um chamamento para cuidar dos outros, do seu próximo, tanto de perto como de longe. É um chamamento para servir os outros. As imagens da ovelha perdida e do filho pródigo iluminam a relação com os próximos e a do Bom Samaritano com os distantes.

É um chamamento a amar servindo, que inclui familiares, amigos, colegas de trabalho, pessoas com quem se partilha a vida quotidiana, todos os membros da sociedade à qual se pertence (mesmo que tenham interesses ou valores diferentes) e todos os seres humanos do mundo, com especial consideração por aqueles que vivem uma vida mais difícil e dolorosa (pobres, marginalizados, doentes, indefesos, abandonados, sem esperança, etc.).

Em relação às coisas, o ministério real significa relacionar-se e usar as coisas da maneira que Deus quer. Grande parte da actividade do leigo no mundo está relacionada, principalmente através do trabalho, com as coisas. É chamado, em colaboração com outros, à elaboração de produtos e à prestação de serviços. O verdadeiro ministério faz sentido nesta actividade. Outro aspecto importante diz respeito ao modo como usam as coisas; usá-las segundo a vontade de Deus significa usá-las para o seu próprio bem e o dos outros, não se deixar escravizar por elas (ter sensibilidade para a renúncia) e não as usar para pecar.

Em relação ao devir, ou à configuração do futuro, os leigos são chamados a participar nela através de sua actividade política, económica e social. “O Homem católico deve usar, desfrutar do mundo, mas também moldar o mundo. É por isso que o Homem é capaz de se assenhorear do mundo; tem poder sobre o mundo, está diante do mundo numa atitude criativa: forma o mundo, está ligado a ele, é atraído e despertado por ele, mas não é escravizado por ele”.

O Pe. Kentenich assinala que, complementarmente a esta vocação objectiva, é relevante que o leigo assuma esta vocação. “Um leigo por vocação diz-se de uma pessoa que no seu ser, dever e acção como leigo vê um chamamento divino e uma vocação divina claramente reconhecidos e abraçados com toda a alma. Numa época marcadamente leiga, o leigo por vocação procura encarnar o ideal do santo da vida diária com trajes leigos. De acordo com a lei dos casos preclaros, ele aspira a dar àqueles que o rodeiam um exemplo atraente e eficaz da santidade da vida diária”.

A Constituição Conciliar Lumen Gentium diz, a propósito da vocação laical: “Com o nome de leigos, são aqui designados os fiéis (…) que, na medida em que são incorporados em Cristo pelo Baptismo, integrados no Povo de Deus e feitos participantes, à sua maneira, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem na Igreja e no mundo a missão de todo o povo cristão na parte que lhes corresponde. O carácter secular é próprio e particular dos leigos. … Corresponde aos leigos, por vocação própria, procurar obter o Reino de Deus, administrando os assuntos temporais e ordenando-os segundo a vontade de Deus. Vivem no mundo, isto é, em todos e cada um dos deveres e ocupações do mundo, e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as quais a sua existência está entrelaçada. Aí são chamados por Deus, para que, no exercício da própria profissão, guiados pelo espírito evangélico, contribuam para a santificação do mundo a partir de dentro, como fermento. Deste modo, manifestam Cristo diante dos outros, sobretudo através do testemunho da sua vida, do resplendor da fé, da esperança e da caridade. Por isso, de modo especial, é seu dever iluminar e ordenar as realidades temporais às quais estão intimamente ligados, de modo que se realizem e progridam incessantemente em conformidade com Cristo e sejam para a glória do Criador e Redentor “.

 

Fonte: Vínculo, Chile. Com autorização do editor.

Foto: iStock Getty Images, 1141500705, rclassenlayouts

Original: espanhol (4/9/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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