Colocado em 2019-08-25 In Artigos de Opinião, Hoerde

Na dialética do amor a diversidade não é o que nos afasta e nos separa mas o que nos faz entrar em comunhão

HOERDE – E agora?, Prof. Dr. Alejandro Blanco Araujo, La Plata, Argentina •

Querida Família de Schoenstatt!

Começo a reflexão de hoje com a nossa experiência na União de Sacerdotes, que atingiu hoje um objectivo, ao qual todos nós há muito aspiramos.—

Hoje, exactamente 100 anos após a fundação da primeira União Apostólica, e somente agora, os sacerdotes das diferentes regiões da União mundial dos sacerdotes decidiram fundar formal e oficialmente a União Internacional dos sacerdotes de Schoenstatt. Isto aconteceu há algumas horas no Santuário Original, onde alguns de vós estavam presentes como testemunhas.

Nós nos preparámos para este acontecimento no decurso dum longo processo desde há mais de dez anos: Pusemos as nossas regiões em contacto entre elas aprendemos a conhecer os nossos Territórios, por ocasião das assembleias anuais de delegados em diferentes países e, partilhando as nossas vidas, trabalhámos uns com os outros. Era uma tarefa apaixonante a de aprender a se conhecer, a se respeitar e a se apreciar mutuamente nas nossas diferenças. Agora conhecemo-nos nos diversos costumes, fizemos a experiência da diversidade das nossas paisagens e mutuamente acolhemos os nossos diversos estilos de vida.

No fim de contas nós fizemos a experiência da acção do Espírito Santo, que forjou entre nós uma comunhão que não foi realizada pelas técnicas de integração, de exercícios dinâmicos ou de meios didáticos; não falamos uma língua comum para comunicarmos uns com os outros. A comunidade por nós alcançada é qualquer coisa de completamente diferente, porque se tratava de aprender a abrir nossos corações para receber o outro na sua verdadeira alteridade. Isto era antes de tudo uma graça, uma irrupção do Espírito Santo.

 

Hoerde, Pentecostes da Aliança de Amor

O que é próprio e original da União Apostólica é que ela propõe a tarefa evangelizadora – o apostolado – na forma de uma rede internacional e inter-cultural, que não impõe uma cultura – a européia, a ocidental – para transportar o Evangelho, mas deixa-se enriquecer pelas diferentes formas nas quais o Evangelho se incultura nas diversas culturas do mundo.

Na preparação do Jubileu de Hoerde surgiu entre nós, na Argentina, uma palavra que inspirou a vida durante estes anos: “Hoerde – Pentecostes da Aliança de Amor”. Não é um acaso se na casa de nossa união sacerdotal, nossa querida Marienau, uma bela representação do Pentecostes – com Maria e os Apóstolos – domina a capela. É o que era a União Apostólica desde o começo. Cinco anos após este acontecimento íntimo, no silêncio da capelinha da Congregação Mariana, uma efusão do Espírito Santo se abriu a todos os homens e a todas as mulheres e floresceu num movimento marcado pela unidade na diversidade das nacionalidades e das condições de vida. Hoerde é o começo deste Pentecostes, que através da nossa Obra de Schoenstatt se difundirá no mundo inteiro, em todos os nossos Santuários que estão profundamente enraizados nos povos onde eles nasceram. A humanidade deve enfim descobrir – digo-o naturalmente numa perspectiva de teológica cristã -, que segundo as leis inspiradas do mistério trinitário, na dialética do amor a diversidade não é o que nos separa, mas o que nos faz comunhão. Quanto mais afirmação de variedade e a atenção que a ela se dá, tanto mais a fraternidade é grande, tanto mais a unidade é grande. É a lei da vida trinitária. Nós a experimentámos como uma graça do Espírito Santo ao longo neste processo de mais de 10 anos, que precedeu o acto de fundador de hoje.

Desde o começo pensámos que a norma de base para o desenvolvimento da nossa comunidade devia ser de passar por um processo tão longo até que as autonomias regionais tivessem atingido uma certa identidade própria e uma certa maturidade comunitária local a fim de se constituir em uniões autónomas. E que o desenvolvimento de estes diferentes pólos autónomos e originais se orientaria a um dado momento para a formação de uma federação internacional unida por decisão autónoma das regiões.

Nós estamos convencidos que este modo original de se organizar internacionalmente é na realidade uma missão fundamental, primeiramente para a Igreja, mas depois também para as diferentes estruturas sociopolíticas atuais.

A Igreja tem de se “sinodalisar”. Como sabemos, o Papa Francisco insiste sempre sobre este ponto, mas naturalmente ele não pode fazer as coisas só. Sinodalisar significa aprender a caminhar junto, a enriquecer-se mutuamente e a respeitar a diversidade cultural. Por conseguinte, a Igreja deve ser desromanizada, deseuropaisada. Não se trata de negar os valores das tradições romanas e europeias, mas de as integrar num mundo culturalmente pluralista que favorece diversos processos de inculturação.

Neste sentido, a União dos Sacerdotes quis e quer continuar a ser um laboratório no qual podemos experimentar esta sinodalidade.

Naturalmente, o objectivo que partilhamos, é o mesmo. Por ocasião da fundação da União foi denominado este objectivo com a palavra “apostolado”, a palavra “União Apostólica” marca claramente este objectivo.

Mas em 1919, a Igreja começava a tomar consciência que o apostolado não era tarefa exclusiva do clero, mas tarefa de todo o cristão. Esta consciência só se desenvolveu lentamente, e precisamente no momento em que a União Apostólica nasceu, começa a difundir-se, sobretudo entre os fiéis leigos, esta consciência do apostolado de todos.

É preciso recordar-se que a Igreja em 1919 não é a Igreja do Vaticano II. Hoje, a Igreja não é mais definida principalmente como a comunidade dos crentes baptizados. “A Igreja é como um sacramento, isto é, um sinal e um instrumento de comunhão dos homens com Deus e da unidade de todo o género humano”, diz claramente a “Lumen Gentium”.

Hoje, toda a Igreja é claramente consciente que a tarefa de evangelização é a tarefa de toda a comunidade e de todo o cristão, como diz Paulo VI na” Evangelii Nuntiandi”: “A Igreja existe para evangelizar”.

Por esta razão nós podemos dizer, que a consciência evangelizadora, a consciência apostólica é presentemente propriedade da Igreja inteira.

Portanto o próprio e a originalidade da União Apostólica não é que ela seja “apostólica”, porque isto se aplica a toda a Igreja. Na nossa Família, a Liga é por excelência apostólica, os Institutos de Schoenstatt são apostólicos. Nós não podemos imaginar um cristão que não seja um cristão evangelizador.

O próprio e a originalidade da União Apostólica residem no facto de ela compreender a tarefa evangelizadora – o apostolado – sob a forma de uma rede internacional e intercultural que nenhuma cultura – europeia, ocidental – não impõe para difundir o Evangelho, mas se enriquece das múltiplas formas nas quais o Evangelho é insculturado nas diferentes culturas do mundo.

Esta rede cuida da originalidade e da diversidade como condição de comunhão e unidade e compromete-se com o difícil esforço de caminhar juntos. Não com arreios como gado, a partir de uma ordem, um estilo e uns hábitos impostos por alguns. Este não é o “Homem livre” que o Padre Kentenich se esforçou por educar.

Esta rede preocupa-se com a originalidade e a diversidade como condição prévia para comunidade e unidade e se empenha no esforço difícil de caminhar em comum. Não cedendo como rebanhos, que seguem uma direção, um estilo e hábitos comuns, que foram impostos por alguns. Esta não é a atitude do “Homem Novo”, que o Padre Kentenich queria educar, mas antes a do “Homem rebanho”, como diz o filósofo Nietzsche.

Caminhar em comum significa treinar-se pacientemente na prática do desacordo, do consentimento, da concessão e do consenso. Cultivar sempre o espírito, como o nosso Pai e Fundador nos ensinou, é a garantia para que os nossos corações sejam abertos para apreciar a originalidade do outro. Eu creio que neste aniversário de Hoerde, em que fundamos a União Sacerdotal Internacional de Schoenstatt, a Mãe de Deus espera da União e das Uniões de Schoenstatt no seu conjunto um tríplice compromisso:

 

  1. Para dentro da Família de Schoenstatt

Começamos pela nossa tradicional tarefa no interior da Família de Schoenstatt: nós devemos continuar a desempenhar nossa função de pars motrix (motor e fonte inspiração espiritual para o movimento). Mas atenção! Não se trata simplesmente de rivalizar com a Liga ou os Institutos no nosso “grau” de apostolado, para que se possa dizer que um Unionista é mais apostólico que um membro da Liga; isto é uma má compreensão da nossa tarefa específica. Nós devemos todos de ser fecundos na nossa tarefa de evangelizadores, nenhuma comunidade ou organização de Schoenstatt ou da Igreja no seu conjunto se deve sentir liberta da tarefa de ser – tanto quanto possível – um evangelizador.

Portanto a nossa tarefa, como pars motrix, não é a de ser mais apostólicos, a de fazer mais que os outros, mas a de cuidarmos da particularidade da nossa vocação federativa: isto é, a de cuidarmos para que a Obra toda viva como uma grande Federação, que a Obra inteira seja uma grande rede, que continuamente cultiva a comunidade na sua originalidade e na sua diversidade. Esta é a tarefa específica da União no interior da Família.

No coração da Obra de Schoenstatt as Uniões devem ser a garantia da comunhão na diversidade. Mas é indispensável evitar dois extremos. Por um lado, a imposição uniforme de um estilo e de um comportamento por um órgão central, que ultrapassa a sua função. Por outro lado, a segregação, a falta de comunidade. Isto não é o caminho em comum – a sinodalidade – mas o caminho separado, a dispersão, a decomposição, que tanto nos fez sofrer na Igreja. Tal deveria ser a arte, que as Uniões praticam na Obra de Schoenstatt: Cultivar a comunidade na diversidade da originalidade de cada pessoa, de cada região, de cada povo.

  1. Para a Igreja

A segunda tarefa parece-me ser mais voltada para a Igreja: A Igreja deve continuar num processo de “sinodalização” ultrapassar a imposição de um estilo, romano, europeu. Neste sentido há ainda muitos fios de prata a tirar na liturgia e nos costumes da Igreja em seu conjunto. Há muitos hábitos a corrigir, sobretudo no clero. Não somente os horrores do abuso sexual, mas todas as formas de abuso, a começar pelo abuso de poder, a acumulação e a utilização excessiva de bens pela hierarquia eclesiástica. São formas de vida principesca, que não correspondem ao estilo do Evangelho nem à época em que vivemos.

A luta do Padre Kentenich na Igreja tem muito a ver com a defesa do respeito da liberdade e da dignidade da pessoa humana. Ele era particularmente sensível quando a liberdade individual era menosprezada. Ele sobe ouvir a voz de Deus nos mais livres e mais nobres desejos interiores dos homens. É isto que caracteriza a sua elevada estima pela liberdade como caminho para a realização da vontade de Deus. As vozes da alma assim como as vozes do tempo são realmente o meio para o discernimento da vontade divina. Nada menos que a ordem do ser. Esta ideia da liberdade pessoal como meio de realizar os desejos de Deus deve ser aprofundada por nós, seus discípulos, e reconhecida pela Igreja. A sua concepção particular da liberdade é a certidão de óbito da antiga regra: “Aquele que obedece, jamais erra.”

Na nossa Federação dos Padres na Argentina, nós chamámos a este conceito de liberdade de Kentenich “liberdade profética”.

Com isto o Padre Kentenich abre o caminho a uma obediência do coração, que vai mais além da obediência aos superiores. É esta lei que está escrita nos corações e da qual fala Paulo, a consciência (Rm 2, 15), que permite a Pedro proclamar: “Importa mais obedecer a Deus do que aos homens” (Act 5, 29).

A novidade no Padre Kentenich é que ele “com a mão no pulso do tempo e o ouvido no coração de Deus” gera um equilíbrio sensível entre as vozes da alma, do tempo e do ser.

A ordem do ser estava armadilhada num labirinto de regras morais e jurídicas. Como já o adverte S. Paulo, “a letra mata, enquanto o Espírito dá a vida” (2 Co 3,6). Era um empobrecimento na compreensão daquilo que é a ordem do ser. Isto podia acontecer, porque a voz do tempo e a voz da alma eram ignoradas ou pelo menos eram tidas como menos importantes que a ordem do ser para o reconhecimento da vontade de Deus. A “liberdade profética”, em compensação, procura um equilíbrio entre os três, a fim de reconhecer a voz de Deus (discernimento) e de se decidir por Ele. Se somos incapazes de o fazer, porque não aprendemos a educar-nos a ser personalidades livres sob a proteção de Maria (o milagre que pela Aliança de Amor Maria opera no nosso Santuário), então não saímos das margens antigas do tempo.

O Padre Kentenich apoia-se sobre o factor “tempo”: Isto é, Deus fala, ao longo dos processos das nossas vidas, através das pessoas, das comunidades e das culturas. Deus aposta no factor “alma”: Ele fala através dos desejos íntimos, livres e nobres da pessoa humana. Deste modo, quando uma pessoa faz o que ela quer no mais profundo dela mesma, da sua liberdade, enobrecida e educada, ela faz realmente o que Deus quer. Esta liberdade exige por vezes a travessia audaciosa de fronteiras extremas, como o fez o Padre Kentenich em Dachau e Milwaukee.

O Papa Francisco falou claramente do excesso do “clericalismo” como de uma doença na Igreja: Subsistem hábitos que não são verdadeiras tradições, mas, para retomar uma expressão do célebre Romano Guardini, simplesmente se trata “limpar” a poeira do costume, que trazemos colada.

Precisamos de ser abertos às numerosas formas criativas pelas quais as culturas recebem o Evangelho de Jesus Cristo.

É indispensável para nós, as Uniões e os Schoenstattianos em geral, participar em toda a iniciativa, em todo o esforço internacional ou regional, que procura integrar a diversidade numa unidade eclesial pluralista, como o Papa Francisco o deseja para a Igreja.

 

  1. Para a cultura

O terceiro desafio, perante o qual estamos confrontados, consiste em oferecer o nosso modelo de integração internacional à cultura em geral e ao momento sociopolítico actual, em que vivemos.

Hoje o mundo caminha por um perigoso precipício. Há um regresso ao nacionalismo, que desintegra a comunidade entre os povos. Os muros são reforçados, o emigrante, o outro, é desprezado. Ressurgiu a fina xenofobia, que considerávamos ultrapassada.

O aspecto mais inquietante de tudo isto é o ceticismo do cidadão médio, que duvida da eficácia das instituições para a integração das culturas e dos povos.

A Declaração universal dos direitos do homem, as Nações Unidas, os esforços para a criação dos organismos de integração regional que respeitem a dignidade e a soberania dos seus membros, numa palavra, a democracia moderna são como bandeiras, que não estamos preparados a levar. Nós não somos um movimento indiferente a estes valores, às verdadeiras conquistas da modernidade.

A elevada estima do Padre Kentenich pela liberdade e pela dignidade do indivíduo, pelo ser humano, não nos torna indiferentes à queda destes valores num pseudomodernismo.

Nós não somos um movimento pietista. Nem somos monarquistas. Definitivamente não. Esta não é a Escola Kentenich. Não dividimos a autoridade, mas praticamo-la democraticamente. Não somos anarquistas e muito menos monarquistas.

No limiar do mundo, em que vivemos, estas bandeiras pertencem a Schoenstatt, e as Uniões devem ser as suas guardiãs privilegiadas.

 

Prof. Dr. Alejandro Blanco Araújo, La Plata, Argentina

HOERDE Homilia do Pe. Alejandro Blanco

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