Colocado em 2016-10-20 In Artigos de Opinião

A alegria do trabalho e a criação de riqueza

Carlos E Barrio y Lipperheide, Advogado- Coach, Argentina •

Alegra-te (Avé) é a primeira palavra que Deus dirige ao Homem no Evangelho[1]. É a primeira coisa que nos quer dizer. Ele conhece-nos e sabe o quanto precisamos de nos sentirmos acolhidos, amados e de encontrar um sentido para as nossas vidas e trabalhos.

Mas, parece que perdemos, em grande medida, a alegria. Vivemos o trabalho como uma actividade sem sentido, em muitos casos deprimidos e sentindo um vazio existencial.

No processo produtivo contemporâneo predomina o lado doloroso do trabalho, esvaziado da sua alegria criativa, ao ponto de nos sentirmos estranhos, alienados face ao que produzimos, separados da nossa própria obra.

Josef Pieper diz-nos que “o trabalho cheio de sentido significa, naturalmente, alguma coisa mais que o facto, despido do esforço e do quefazer diários. Alude-se com isto ao facto que o Homem compreende e “assume” o trabalho como é, em realidade: como “o cultivo do campo”, que é, ao mesmo tempo, felicidade e fadiga, satisfação e suor do rosto, alegria e consumo de energia vital. Se, se omite uma destas coisas e, se falseia, assim, a realidade do trabalho, torna-se impossível a festa ao mesmo tempo”. [2]

No mundo empresarial também parece que se perdeu o espírito da alegria em produzir bens e serviços, dando-se prioridade, como finalidade determinante, à rentabilidade económica. Esqueceu-se o sentido da vocação de gerar riqueza para o próprio bem e o da comunidade, a procura da criatividade e a alegria do processo colectivo de gerar bens e serviços.

Devemos descobrir que são finalidades convergentes e complementares as que são necessárias para levar a cabo um trabalho que ligue a pessoa à sua obra e a alegria que produz e, uma empresa que desenvolve a sua actividade com entusiasmo e paixão.

Assinala Kentenich que “… hoje cresce a produção mas despersonaliza-se de forma crescente o Homem… por isso, nunca chega a ter uma relação com a obra das suas mãos. As forças criativas que dormitam nele, não são libertadas; o trabalho não produz nenhuma alegria; nunca se transforma em vocação verdadeira, autêntica…” [3]

Como fazer, então, para libertar as forças criativas do Homem e da empresa e recuperar a alegria?

O caminho é reconstruir a relação natural que existe, no Homem, entre o trabalho e a sua obra, para o que, deveremos tornar a colocar a pessoa no centro da actividade e não como mais um custo da produção. Dever-se-á descoisificá-lo, “desproletarizar o espírito de quem trabalha” . [i]

Como nos lembra Anselm Grün “não podemos tender directamente para a alegria. O único que podemos fazer é tentar viver intensa e criativamente. Então, aparecerá espontaneamente a alegria como expressão da vitalidade e da criatividade”. [4]

O caminho para a alegria é, portanto, o caminho da descoberta do valor do trabalho, do seu porquê, do significado que tem o produzir bens e serviços e partilhá-los.

Este trabalho com sentido levar-nos-á a sentirmo-nos alegres, não apenas, na tarefa mas, também, em os produzir com outros, isto é, em se ter conseguido ser solidariamente produtivos, criando riqueza! Para a empresa e para a comunidade.

Que grande vocação, têm as empresas, como motores da produção da sociedade, de gerar riqueza, num mundo no qual constatamos as privações que sofrem tantas pessoas submersas na pobreza.

Criar riqueza é gerar vida, fomentar a criatividade, é disso que se trata, de fazer que a riqueza se multiplique, expanda e partilhe.

Só destacando o valor moral que tem produzir riqueza poderemos recuperar a alegria e combater o flagelo da pobreza.

Para um cristão é, gratamente, surpreendente o que disse Enrique Shaw [5] quando comparou o progresso da empresa com a Eucaristia. Assinalou que “a transformação eucarística é o modelo de todo o progresso, é a máxima transformação possível, é um convite permanente a todo o verdadeiro progresso… que nos faz pensar que a empresa também deve ser um instrumento de progresso, de perfeição humana e sobrenatural. Por outras palavras que, deve ser analogicamente sacramentalizável. [6]

Que nobre proposta nos apresenta! Transformemos e multipliquemos os bens e serviços, fazendo-o com alegria e entusiasmo, para um crescimento da pessoa e da empresa em benefício do bem comum.

Então poderemos celebrar com alegria a festa da vida.

[1] Alegra-te, cheia de graça”, Lucas 1, 26
[2] Josef Pieper. “Uma teoria da festa”. Editora Rialp. (1974), pág. 13.
[3] José Kentenich. “O Pensamento Social do Pe. José Kentenich.” Editora Nueva Patris (2010), pág. 104
[4] Anselm Grün. “Recuperar a própria alegria”. Editora Verbo Divino (1999), pág. 13
[5] Enrique Shaw, nasceu em Paris em 26 de fevereiro de 1921 y morre em Buenos Aires em 27 de agosto de 1962. Foi um leigo e empresário argentino. Pela sua vida exemplar, a Igreja aceitou que se inicie o seu processo de canonização y desde 2001 é considerado Servo de Deus. Promoveu e impulsionou o crescimento humano dos seus trabalhadores inspirando-se na Doutrina Social da Igreja, fundou a Associação Cristã de Dirigentes de Empresa (ACDE), entidade que forma parte da União Internacional de Empresários(UNIAPAC), y escreveu inúmeros livros, folhetos e conferências.
[6] Enrique Shaw. “Y dominad la tierra”. Editora ACDE (2010), pág.69.
[i]  José Kentenich assinalava este conceito na conferência que deu em 13 de Junho de 1930 (ver “Desafio Social”. Editora Schoenstatt (1996), pág. 326 y ss.). Desta forma estabelecer-se-ão relações personalizadas e no que considere e tratem a pessoa como una mercadoria. Diz-nos que o caminho a percorrer para desenvolver a humanização nas empresas é “a configuração das relações pessoais e de trabalho segundo o espírito de família”. Para ela a família é o rosto de Deus no mundo.

 

Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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