Colocado em 2016-06-02 In Artigos de Opinião

Ordenou-lhes que os mandassem sentar por grupos…

Pe. Oscar Saldivar, Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo – Ano C •

 

Queridos irmãos e irmãs:

Celebramos hoje a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, altura em que colocamos no centro da nossa vida de fé, o Sacramento que é “para nós a principal e mais insigne lembrança do grande amor com que Ele nos amou (1)

Neste dia voltamos a consciencializar-nos do grande dom que recebemos na Igreja, dom que nos chega vindo do próprio Jesus tal como o expressa o apóstolo S. Paulo: “Com efeito, eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus na noite em que era entregue, tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse: «Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim» (1 Co 11, 23-24).

Disse-lhes Ele: «Dai-lhes vós mesmos de comer.»

Neste Sacramento, em que, “o dom e O que o dá são a mesma coisa” (2). Jesus, não somente, Se entrega a Si mesmo mas, ensina-nos a entregarmo-nos com Ele e como Ele. Vemo-lo no Evangelho que acabámos de escutar (Lc 9, 11b-17). Perante o pedido dos Doze: «Despede a multidão, para que, indo pelas aldeias e campos em redor, encontre alimento e onde pernoitar, pois aqui estamos num lugar deserto.»  (cf. Lc 9,12), Ele responde-lhes: «Dai-lhes vós mesmos de comer.» (Lc 9,13a).

Provavelmente os discípulos ficaram desconcertados perante este desafio de Jesus: «Dai-lhes vós mesmos de comer.» De facto, perante a multidão que seguiu o Mestre, os discípulos a única coisa que podem fazer é reconhecer que não têm os recursos necessários para os alimentar: «Só temos cinco pães e dois peixes; a não ser que vamos nós mesmos comprar comida para todo este povo!» (Lc 9, 13b). Num texto paralelo a este Evangelho, face à magnitude do pedido e à exiguidade das possibilidades, os discípulos respondem: «Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?» (Jo 6,9).

Também nós, muitas vezes nos experimentamos ultrapassados pelas exigências da vida diária e pelas carências das pessoas que nos rodeiam. Como os discípulos, nós preferimos que cada qual procure o seu próprio alimento e o seu próprio lar. Muitas vezes temos medo de nos envolvermos e de nos comprometermos com a vida dos outros, ou simplesmente, estamos demasiado ocupados com a nossa própria vida, demasiado encerrados em nós próprios. Já temos que baste com a nossa própria vida! É suficiente tratarmos de saciar a nossa fome e a dos nossos! Contudo, Jesus volta a desafiar-nos.   «Dai-lhes vós mesmos de comer.»

Se o nosso coração está desperto, se está atento e vigilante na oração, então este desafio de Jesus leva-nos a mostrar-Lhe os nossos “cinco pães e dois peixes”. O pouco ou muito que temos na nossa vida:

 

“Tudo o que levo em mim,

o que suporto,

o que digo e o que arrisco,

o que penso e o que amo,

os méritos que obtenho, o que dirijo e conquisto,

o que me causa sofrimento e alegria:

o que sou e o que tenho,

Te ofereço como dom de amor” (3)

 

Deste modo, Jesus pega nesses cinco pães e nos dois peixes e abençoa-os (cf. Lc 9, 16). Ele abençoa a nossa entrega, quer seja esta entrega das nossas capacidades e tempo, quer seja dos nossos bens e talentos, mas sobretudo, abençoa a entrega do nosso coração. Jesus abençoa a nossa entrega e com isso possibilita que cumpramos o Seu pedido: «Dai-lhes vós mesmos de comer.»

Ordenou-lhes que os mandassem sentar por grupos

Mas, Jesus ainda nos ensina mais uma coisa neste Evangelho e neste dia do Seu Santíssimo Corpo e Sangue. Para que Ele possa saciar plenamente a fome de alimento e de lar que há no coração de cada Homem, a nossa colaboração e entrega deve ir orientada à formação de comunidades. Por isso, o Senhor pede aos Seus discípulos: “Ordenou-lhes que os mandassem sentar por grupos”  (cf. Lc 9, 14).

Mostra-nos, então, plenamente, o sentido eclesial da celebração e da vida Eucarística. “A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não traduz, apenas, uma experiência quotidiana de fé, mas encerra, em síntese, o núcleo do mistério da Igreja” (4)

E, assim como é certo que “a Igreja vive do Cristo Eucarístico, d’Ele se alimenta e por Ele é iluminada” (5) e que “a Igreja pode celebrar e adorar o mistério de Cristo presente na Eucaristia precisamente porque o próprio Cristo Se entregou primeiro a Ela no sacrifício da Cruz” (6); é certo também que a Igreja e a Humanidade vivem também da entrega Eucarística quotidiana dos discípulos de Jesus. Quantos homens e mulheres se entregam com Cristo no apostolado para que, outros vejam saciada a sua fome de pão e lar!

Neste sentido interpreto o Evangelho que escutámos. Jesus chama-nos a “fazer” Eucaristia, a “fazer” comunidade e, por isso, a Igreja. Logo que Jesus disse aos Seus discípulos “Ordenou-lhes que os mandassem sentar por grupos, “Tomando, então, os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os aos discípulos, para que os distribuíssem à multidão. (Lc 9, 14b. 16)

Jesus que Se dá a Si mesmo como dom, fez dos Seus discípulos distribuidores da Sua doação para saciar a fome da multidão que o segue (7) Do mesmo modo, Jesus pega na nossa colaboração e na nossa entrega, nos nossos dons: abençoa-os, parte-os e entrega-os, de novo, a nós, para que os partilhemos em comunhão. Deste modo, Ela faz de nós distribuidores da Sua doação e realiza o mistério da Igreja.

Ao celebramos e vivermos a Eucaristia, saciamos a nossa fome de Cristo, mas também, nos comprometemos com Jesus a saciar a fome de pão e de lar dos nossos irmãos e, deste modo, realizarmos a Igreja. Alimentamo-nos do sacrifício eucarístico para, com Cristo, saciarmos outros e vivermos em comunhão com eles.

Por isso, ao celebrarmos hoje a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, queremos, com Maria, contemplar “o rosto eucarístico” (8) de Jesus e queremos agradecer-Lhe o imenso dom que nos dá na Eucaristia, renovando a nossa disponibilidade para colaborar com Ele na realização da Sua Igreja. Por isso, na oração, Lhe dizemos:

“Com fé eu te adoro

e me ofereço a Ti como instrumento;

nada retenho para mim,

a tua glória é a minha felicidade.

Glória a ti, Deus Filho,

Com o Pai no seu trono,

E ao Espírito Santo

Agora e sempre. Amén” (9)

 

Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

[1] URBANO IV, Bula Transiturus de hoc mundo com a qual se instituiu a festa do Corpus Christi (11 agosto 1264) [em linha]. [data de consulta: 24 de Maio de 2016]. Disponível em: <https://w2.vatican.va/content/urbanus-iv/es/documents/bulla-transiturus-de-mundo-11-aug-1264.html>
[2] Ibídem
[3] Pe. J. KENTENICH, Rumo ao Céu, 16.
[4] JOÃO PAULO II, Carta encíclica Ecclesia de Eucharistia sobre a Eucaristia na sua relação com a Igreja, 1.
[5] Ibídem, 6.
[6] BENTO XVI, Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis sobre a Eucaristia, fonte e cúspide da vida e da missão da Igreja, 14.
[7] Cf. A. STÖGER, O Evangelho segundo S. Lucas. Tomo I  (Editorial Herder, Barcelona 1979), 253.
[8] Cf. JOÃO PAULO II, Carta encíclica Ecclesia de Eucharistia…, 7.
[9] Pe. J. KENTENICH, Rumo ao Céu, 145. 161.

 

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