Colocado em 15. Janeiro 2016 In Artigos de Opinião

Descobrir a estrela

Pe.  Óscar Saldívar •

No primeiro Domingo de Janeiro celebramos a Solenidade da Epifania do Senhor. No nosso país (Paraguai) esta Solenidade Litúrgica enraizou-se, profundamente, nos nossos corações e na nossa cultura como “o dia dos Reis Magos”; quantas crianças prepararam pasto e água para os camelos dos Reis Magos, com a esperança de receber uma prenda! Inclusivamente, há comunidades cristãs que veneram um destes Reis Magos como santo: S. Baltasar. Mas, que significa a Epifania do Senhor? Epifania significa manifestação; e portanto, a Epifania do Senhor é a manifestação do Senhor. Ao contemplarmos o presépio e ao vermos ali a representação dos três Magos do Oriente, tomamos consciência de que o pequeno Menino nascido em Belém da Judeia é, não somente “pastor do povo de Israel” (cf. Mt 2,6) mas que, é, também, a salvação para todos os povos: “luz para iluminar as nações e glória do povo de Israel” (cf Lc 2, 32). Sim, hoje, manifesta-se essa salvação para todos, no Menino indicado pela Estrela.

“Uns Magos do oriente”

Escutámos o texto tirado do capítulo segundo do Evangelho segundo S. Mateus (Mt 2, 1-12). Apenas aqui existe o relato da visita dos Magos do Oriente ao Menino Jesus. Vale a pena perguntarmo-nos: quem eram estes “Magos” do Oriente? O Evangelho que acabámos de ouvir não menciona que estes homens tivessem sido reis mas, refere-se a eles como “Magos vindos do Oriente” (Mt 2,1)
“Como é que estes “Magos” chegaram a ser “Reis Magos”? A explicação encontra-se na Primeira Leitura que ouvimos, tirada do Livro do profeta Isaías (Is 60, 1-6). Muito cedo os cristãos aplicaram esta passagem profética ao acontecimento da visita dos Magos do Oriente: “As nações virão à sua luz e os reis ao fulgor do seu alvorecer. Manadas de camelos cobrirão a sua terra, camelos novos de Midiã e de Efá. Virão todos os de Sabá carregando ouro e incenso
e proclamando o louvor do Senhor”. (Is 60, 3. 6). Assim, os Magos do Oriente acabaram convertidos em Reis Magos e, entraram, também, no presépio os camelos que carregam prendas que, estes soberanos de terras longínquas trazem para o verdadeiro Rei. No fundo, os “Reis Magos” representam, também, a universalidade da salvação em Cristo; por isso, na antiguidade cristã cada um destes Reis Magos representava cada um dos continentes conhecidos nessa altura: África, Ásia e Europa. Mas, provavelmente, estes Magos do Oriente eram “sábios”, astrónomos, homens que se dedicavam a observar os céus para estudarem o curso dos planetas e das estrelas. E, nesse sentido, estes três sábios do Oriente representam, também, as diferentes religiões do mundo e a ciência humana; as quais, em última instância, encontram a sua verdade definitiva em Jesus Cristo.
Mas, sobretudo, os Magos do Oriente representam o Homem em constante busca, o Homem que constantemente se põe a caminho, á procura de algo, mas, sobretudo de “Alguém”. O homem e a mulher que estão acordados, que estão atentos e vigilantes. E, é, por isso, que os Magos dizem: “vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O” (Mt 2,2)

“Vimos a sua estrela no Oriente”

A estrela que os Magos viram no Oriente e, que os guiou até Belém da Judeia é um sinal. Mas, não basta, apenas, um sinal para nos pormos a caminho. Há muitas estrelas no firmamento. Porque é que estes três homens se puseram a caminho ao ver esta estrela em particular? Porque, não se limitaram a ver a estrela mas, reflectiram e rezaram sobre o sinal que viram. Interpretaram este sinal e, perceberam que, se deviam pôr a caminho. No fundo, trata-se do que o Pe. José Kentenich chama a Fé Prática na Divina Providência. O Homem de fé, o Homem que procura, é um Homem atento aos sinais de Deus no tempo presente.
E, no nosso tempo presente há muitos sinais, há muitas estrelas, por assim dizer; por isso, não basta, apenas que, vejamos estas estrelas; mas, que estes sinais, estas estrelas que vemos na nossa realidade quotidiana, é preciso que as levemos à reflexão e à oração pessoal. E, aí, descobrir, qual é o sinal com que Deus nos quer presentear? Por isso, para sermos homens e mulheres de fé, homens e mulheres que procuram, na realidade, a presença de Deus, a primeira coisa que temos que fazer é observar a realidade. Muitas vezes vivemos anestesiados, vivemos distraídos e adormecidos. As coisas acontecem ao pé de nós e, nem nos damos conta. As coisas acontecem nas nossas famílias, na nossa comunidade, no nosso país e, por vezes, mostramo-nos distraídos, indolentes e indiferentes.
Por isso, o primeiro passo para descobrirmos o sinal de Deus, é observar a realidade. E, observar a realidade, observar a nossa vida tal como é e, não, como imaginamos que deveria ser. Mas, a nossa vida tal como é. O segundo passo, seguindo o caminho que fizeram os Magos do Oriente, é meditar esta realidade, meditar no coração estes sinais que há na minha vida quotidiana. Levar essa realidade concreta e quotidiana para a minha oração. Perguntar-me: o que é que Deus me está a dizer? O que é que Ele me quer dizer através destes sinais, através desta estrela que aparece no meu horizonte? Em terceiro lugar, o homem e a mulher de fé põem-se a caminho em direcção ao que Deus lhes propõe. Não basta, apenas, descobrir o que Deus quer para cada um de nós e para a nossa comunidade mas, temos que pôr-nos a caminho, tomar decisões concretas e encaminharmo-nos, assim como, os Magos se encaminharam, primeiro para Jerusalém e, a seguir, para Belém. Finalmente, entregarmos, com generosidade e alegria, o coração aonde Deus nos pede. Assim, encontramos Cristo. Quando o Senhor marca alguma coisa no nosso caminho de vida e, nos enchemos de coragem para trilhar esse caminho de vida e, entregamos todo o nosso coração naquilo que fazemos, então, nisso, também, encontramos Jesus Cristo. Então, nisso, também, estamos a adorar o Senhor. Em última instância, adorar Deus significa cumprir a vontade de Deus; adorar significa tratarmos de viver nas nossas vidas aquilo que cremos que Deus nos pede.

Descobrir a estrela

Queridos amigos e amigas, por isso, vale a pena que, cada um de nós se pergunte: onde está a estrela que hoje nos indica o caminho em direcção a Jesus Cristo? Deus coloca sempre uma estrela diante de nós, uma estrela que nos quer indicar o caminho. Para isso, temos que observar a nossa realidade. Por exemplo: observar a realidade do nosso país. As inundações sofridas por vários dos nossos compatriotas e irmãos, nessas pessoas há também uma estrela que Deus coloca para nos encaminhar em direcção a Ele. Rezar com a Sagrada Escritura é, também, uma maneira de descobrirmos onde está essa estrela que Deus coloca no nosso caminho para nos guiar. E, finalmente, escutarmos a voz de Deus no nosso coração. Três caminhos para podermos descobrir essa estrela que Deus coloca na nossa vida. Para isto, precisamos, também, de silêncio e da solidão que é fecunda. Essa solidão que nos permite tomar consciência da nossa vida e, deste modo, ouvir esse Deus que nos fala ao coração e, nos quer mostrar uma estrela para guiar a nossa vida.
Por isso, esta linda Solenidade da manifestação do Senhor deve ser um motivo de alegria para nós. Porque, assim como, Ele se manifestou a estes Magos do Oriente, o Senhor continua, hoje, a manifestar-Se a nós, continua a mostra-nos estrelas no caminho da nossa vida para nos guiar para Ele e para a felicidade e plenitude de vida. Por isso, queremos ser homens e mulheres que procuram, como os Magos do Oriente. Não queremos estar distraídos nem indiferentes ou conformados. Aquele que, vive constantemente distraído não vai poder encontrar a estrela do Senhor que marca a sua vida. Aquele que é indiferente às necessidades dos outros não vai encontrar a estrela que nos leva ao encontro com Jesus Cristo. E, aquele que, se resignou e, já não luta para se melhorar, já não luta pela santidade, também não vai ser capaz de ver a estrela de Jesus Cristo.

A Maria, nossa Mãe que, é a estrela que guia o nosso caminhar, pedimos-Lhe que nos leve em direcção “ao sol que nasce do alto” (Lc 1, 78), Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amén.

 

Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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