Colocado em 9. Outubro 2015 In Artigos de Opinião

Paciência

Por Manuel de la Barreda Mingot, Madrid, Espanha •

Hoje, acabo de me dar conta duma coisa. Falo muito em deixar-me moldar por Deus, em saber fazer a Sua vontade e não a minha mas, a verdade, é que eu não faço a mínima ideia do que isso significa e, não o faço, não o ponho em prática.

Há pouco tempo li, de novo, o livro “Os três monges rebeldes” de M. Raymond O.C.S.O. e, fiquei impressionado com o parágrafo seguinte:

“…A santidade custa, não é verdade? – Foi a calma pergunta que fez o guerreiro, cujos olhos olhavam ao longe.

– Sim – respondeu, rapidamente, Esteban – Custa muito, mas o preço está sempre ao alcance das nossas carteiras. Não a compramos, não porque sejamos pobres mas, porque somos mesquinhos. Não queremos pagar o preço! Aqui está um perfeito exemplo do fácil que é adquirir santidade, se o quisermos. Esta separação entre Bernardo e Hugo será dolorosa. Terão que reagir natural ou sobrenaturalmente. Podem fomentar essa dor, amofinar-se, gritar e lamentar-se sobre a solidão e, a falta de amor da vida religiosa; ou podem sorrir, exteriormente, ainda que, interiormente sofram; podem animar-se um ao outro no momento da despedida, pedindo, secretamente, a Cristo que a pena que agoniza as suas almas arda como incenso no braseiro do Seu Sacratíssimo Coração, oferecendo-a à Divindade, em acto de reparação e louvor. O fazer isto não acalma a dor. Não, de facto. Frequentemente, aumenta-a pela negação do alívio que representa a expressão exterior da dor humana. Tu já sabes qual dos dois caminhos é o bom. Sabes qual deles faz o Homem de Deus e qual o monge fraco. Sim, Gauldry, a santidade custa; mas, podemos, sempre, pagar o preço. A única pergunta é esta: pagá-lo-emos?…

E, como digo, impressionou-me muito. Não sabia bem porquê, mas o caso é que anotei este parágrafo e, lá ficou guardado.

Hoje, na Missa, 20 dias depois de ler o parágrafo, cheguei à mesma conclusão mas por outra via. Hoje, fiz uma reflexão sobre a Paciência e a mansidão que, emanam, ambas, da Confiança. Se, de verdade, acredito que Deus me ama, devo acreditar, também, que tudo o que Ele me dá é bom. Se confio no Seu Amor, devo ter paciência, devo aceitar que, o que Deus me dá tem os seus tempos e, tenho que saber esperar. Devo aceitar, com mansidão, os Seus desígnios e, deixar-me moldar por Ele. E, deixar-me moldar não é estar, continuamente, a queixar-me das minhas circunstâncias, pois esse queixume interminável faz-me perder a Paz Interior, elemento imprescindível para que Deus possa actuar em mim.

Portanto, ainda que, tenha aceitado alguma coisa, acatado alguma circunstância adversa da minha vida, tenha tomado alguma decisão difícil, se depois não consigo parar de me queixar, de ter pena de mim mesmo, de ansiar o que não tenho nem vou ter, acontece-me o que S. Paulo diz na sua Carta aos Coríntios. “Ainda que falasse todas as línguas dos Homens e dos Anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que ressoa ou como um címbalo que retine”

Ainda que, eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que, tenha tão grande fé, uma fé que transporte montanhas, se não tiver amor nada sou.

Ainda que, eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado se não tiver amor, de nada me aproveita.

Porque se persisto na minha rebeldia, o que eu não estou a fazer é a amar a Deus através da Sua vontade mas, estou a opor-me a ela, a Ele.

Chegamos, portanto, à resposta de Esteban. Amar a Deus, Amar a Sua Vontade, é ser como esses grãos de incenso que se queimam no Seu Sacratíssimo Coração, isto é, não me queixar, não ter pena de mim mesmo. É pôr o meu sofrimento, a minha rebeldia aos pés da Cruz de Cristo e, não pensar mais nisso. É fácil? Claro que não, mas é tão simples. E, quando, de novo, vier a vontade de te lastimares, voltar a fazer o mesmo. Isso, é deixar-se queimar, isso é Amar a Deus. Isso é apostar pela santidade. E, a seguir, sorrir.

E, o resto, entregá-lo a Deus. Ele sabe. Ele conhece as minhas necessidades e, o que me faz falta. Ele sabe quanto tempo preciso para mudar e, quais as coisas que me fazem falta ou não, para esse fim.

No mundo em que hoje vivemos, estamos acostumados às soluções imediatas. Há um problema? Pois, apresenta-se uma solução para o resolver, já. Tudo é rápido. A informação via internet obtemo-la com um simples clic do rato. Tudo ao alcance da mão. Tudo é para já.

Estamos a perder de vista que, a vida não é assim. Que para se nascer, precisamos desenvolver-nos no seio da nossa mãe durante nove meses. Que para aprender a andar, precisamos de nos robustecer e levamos um ano, mais ou menos, a partir do nascimento. Que para aprender a educar a nossa mente, levamos uns 20 anos. E, para mudar alguma atitude, podemos levar a vida toda.

Por isso, as circunstâncias adversas que vivemos, tentamos eliminá-las da nossa vida de modo imediato e, não as podemos suportar, daí o nosso queixume interminável que nos tira a Paz e, não nos deixa retirar o positivo, não nos deixa escutar Deus.

Temos que aprender a dar tempo ao tempo. A aceitar as coisas. E, muitas vezes, a não fazer nada. Simplesmente, esperar e confiar.

Fotografia: cortesia de Hanna Grabowska, Schoenstatt

 

Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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