Colocado em 27. Maio 2015 In Artigos de Opinião

A Trindade e nossos vínculos pessoais

PARAGUAI, por Pe. Oscar Iván Saldivar •

Confesso-lhes que durante meus primeiros anos de estudos teológicos, o estudo do mistério da Santíssima Trindade foi tema favorito para mim. Não apenas pelas implicações intelectuais do próprio tema, ou pelo esforço racional que a Igreja tem feito durante séculos para tentar compreender algo desse Deus que é Uno e que se revela como Pai, Filho e Espírito Santo; mas também pelas implicações afetivas que o mistério trinitário apresenta para nós, os seres humanos.

Um Deus trinitário é um Deus que nos fala da importância dos vínculos entre as pessoas, da importância das relações, de como importantes – e até fundamentais – são as pessoas na formação de nossa personalidade. O mistério de Deus trinitário é o mistério do ser humano, do ser humano e seus vínculos, do ser humano vinculado.

Ser pessoa e estar vivo implicam sempre relação com o próximo

Algo que me chama a atenção em nosso calendário litúrgico é a ausência de uma data, de uma festa dedicada apenas à Pessoa de Deus Pai… Recentemente celebramos Pentecostes – a grande festa do Espírito Santo – e não faltam dias nos quais recordamos Jesus, o Filho – pensemos na Páscoa e no Natal. Com certeza, isso não se deve a um erro ou a um engano mas sim, simplesmente, ao fato de que a face do Pai nos é revelada, nos é mostrada não como uma face solitária, mas como a face de uma pessoa em comunhão com o Filho e com o Espírito Santo. Poderíamos dizer que o Pai precisa do Filho e do Espírito Santo para ser quem é. Sua divindade não está na autossuficiência, mas em sua capacidade de relacionamento.

De fato, lemos nas Sagradas Escrituras. Tanto o Filho como o Espírito dizem: “Abbá, Pai” (Rm 8, 14-17), porque o Filho e o Espírito Santo o reconhecem como Pai, sabem quem é o Pai, o Pai se reconhece único e amado. Poderíamos inclusive dizer que, por isso, o Pai é uma pessoa. Porque ser pessoa e estar vivo implicam sempre relação com o próximo.

Nossos vínculos

Se a relação é constitutiva em Deus, quanto mais em nós, que somos criados à sua imagem e semelhança. De fato, nós nos tornamos pessoas no contato com o próximo, nos vínculos com as pessoas que nos rodeiam, com nossa terra e conosco mesmos.

Precisamos dos outros para descobrirmos a nós mesmos e para nos entregarmos ao próximo. E os outros precisam de nós; cada um de nós é importante, único e irrepetível, sempre e quando permanecemos no vínculo e no amor. Quando deixamos de nos vincular em verdade – a partir do âmago de nosso ser – deixamos de ser pessoas e nos transformamos em objetos, em coisas.

Quando Jesus nos entrega o mandato missionário de ir ao mundo todo e batizar os povos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28,16-20), não faz referência apenas a uma fórmula ritual, mas também a uma realidade mais profunda. Trata-se de aprender a nos vincularmos, aprender a sermos pessoas; trata-se de nos submergirmos na vida divina e participarmos dela. Trata-se de que cada um de nós se faça filho, para que, no Espírito Santo, cada um de nós possa dizer de coração: “Pai!”.

É esta a missão da Mãe no Santuário: fazer que sejamos cada vez mais cristãos, fazer-nos cada vez mais Cristo, o Filho que se reconhece amado pelo Pai, no vínculo incondicional do Espírito Santo, do Amor. Peçamos a graça de participar da vida de Deus e de aprender a viver como Deus, vinculados. Amém

 

Foto: Imagem da Santíssima Trinidad, nas Missões Jesuítas.

Original em espanhol. Tradução: Maria Rita Fanelli Vianna – São Paulo / Brasil

 

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