Colocado em 13. Novembro 2017 In Schoenstatteanos

“São coisas da minha Mãe”

ESPANHA/PARAGUAI, Guillermo Pérez Luraschi •

Desde outubro de 2016 que estou a estudar na cidade de Barcelona e, antes de começar esta aventura e durante todo este percurso, a presença de Deus e da Mater esteve muito fortemente marcada em cada detalhe, pelo que sinto a necessidade de partilhar este testemunho com todos vós.

Faça-se, Senhor, a tua vontade

Tudo começou no mês de setembro de 2015 quando o Estado paraguaio realizou o lançamento de umas bolsas completas para alunos com título universitário, que desejavam continuar os seus estudos de pós-graduação no exterior. Isto motivou-me muito já que, talvez, o maior sonho da minha vida era poder realizar os meus estudos no estrangeiro. Por tal motivo, estava decidido a apresentar-me na convocatória no início do ano 2016 para viajar para a Europa em outubro do mesmo ano.

Una noite, em novembro de 2015, tive um sonho, o qual foi muito real e atribui-o à minha imaginação, apesar de mais tarde tudo fazer sentido. Nessa noite sonhei com Nossa Senhora, que só me disse esta frase: “Obrigada por dares a tua vida por mim”.

Nesse momento, esse sonho não tinha um significado muito claro e eu buscava uma resposta. A mesma não tardou em chegar. Semanas mais tarde, veio falar comigo o Chefe do Ramo da Juventude Masculina Universitária de Asunción para dizer-me que tinha sido selecionado, entre alguns jovens, como candidato a Chefe do Ramo para o ano 2016.

Tive alguns dias para tomar esta importante decisão, a qual significava a possibilidade de não me candidatar às bolsas do Estado, já que, no caso de ser selecionado na Juventude, devia cumprir com as responsabilidades de chefe. Nesse instante, tudo fez sentido para mim. Estudar no estrangeiro sempre foi o sonho da minha vida, e Maria tinha-me pedido que desse a minha vida por Ela. Claramente, isto significou uma coisa só para mim: entregar o sonho da minha vida em troca de ficar a servir a Mater como Chefe do Ramo no caso de ser selecionado.

Terminei aceitando a proposta, apesar de que nas votações (maneira como se elege o novo Chefe de Ramo no Paraguai), se elegeu outro jovem como chefe de ramo para o período de 2016. Desta maneira, pude entender uma das maiores provas que a Mater tinha para mim: Quanto estás disposto a dar por mim?

Santuário Jovem, Asunción

Ocupemo-nos das coisas de Deus e Ele se ocupará das nossas

Uns meses depois, em abril de 2016, finalizou a minha candidatura às bolsas do Estado paraguaio e logo a seguir, a Mater tinha, novamente, uma grande prova para mim. Recebi a proposta de ser um dos chefes de uma das regiões das Missões Universitárias Católicas, nas quais estava a trabalhar há vários anos e pelas quais sinto um grande carinho.

Nesse momento não estava em condições de aceitar a proposta, já que devia esperar até finais de junho para saber se, finalmente, seria selecionado para a bolsa. Perguntei se podiam esperar uns dias até que tivesse uma resposta definitiva.

Finalmente, fui selecionado para a bolsa e aí começou uma grande batalha no meu interior, entre a razão e o coração. Por um lado, a razão dizia-me, claramente, que devia aproveitar esta oportunidade única de ter uma bolsa completa no exterior; mas por outro lado, o coração pedia-me para ficar a trabalhar nas missões e estar perto da minha família, amigos e de um trabalho que há tempos estava à espera e agora tinha conseguido.

Nesse momento foi como se Deus tivesse tomado totalmente o controlo de tudo e ocupou-se das minhas coisas, encarregou-se de acomodar cada uma das minhas dúvidas que me preocupavam e me estavam a prender para realizar a viagem. Era uma mensagem muito clara da parte de Deus. Ele queria que eu aceitasse a bolsa e fosse para a Europa e foi por isso que se encarregou de solucionar todas as minhas preocupações para me deixar o caminho livre.

Foi aí que voltou à minha mente aquele sonho com a Virgem: “Obrigada por dares a tua vida por mim”, era uma clara mensagem de que, novamente, estava a pedir-me que deixasse por pouco mais de um ano toda a minha vida no Paraguai, a minha família, amigos, trabalho, missões e coisas que me faziam feliz no Paraguai, e que me abandonasse nas mãos de Deus para cumprir os planos que Ele tinha para mim em Barcelona.

Eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos

No início de outubro, cheguei a Barcelona com todas as ilusões e medos que isso acarreta. Sabia, além disso, que seria bastante difícil manter o nível de fé e espiritualidade com que somos abençoados ainda na América do Sul. Pude comprová-lo pouco tempo depois de chegar, ao ver a pouca participação da juventude nas missas e atividades paroquiais, pelo que soube que precisaria de um complemento para manter-me próximo da pedagogia e espiritualidade de Schoenstatt. Contactei com o Padre Jaime Vivancos, assessor da Juventude Masculina no Santuário de Valldoreix, Barcelona, para lhe oferecer a minha ajuda em qualquer coisa que precisasse durante a minha estadia ali.

Nesse momento, foi quando a Mater me mostrou a verdadeira missão que me tinha preparado e porque me tinha levado até Barcelona. O Padre Jaime, com muita alegria, disse-me que quatro rapazes da Juventude Masculina estavam com muita vontade de realizar a sua Aliança de Amor e pediu-me que me encarregasse deles e os preparasse no Curso de Aliança.

Ao principio, muitos medos passaram pele minha cabeça, já que nunca tinha sido incumbido de nenhum grupo e sobretudo a insegurança de ter que preparar quatro jovens de uma cultura totalmente distinta da minha e de um continente no qual a fé em Deus diminui dia a dia. Mas senti que a Mater precisava, justamente, isso de mim, trazer esse fogo e essa fé que temos na América do Sul e ajudar a crescer, um pouco mais a fé desse quatro rapazes e das pessoas com as quais iria entrar em contacto.

A Mater também me deu a graça de formar em Barcelona um grupo de amigos que conhecia do Paraguai, das Missões e do Movimento de Schoenstatt, com os quais partilho os mesmos valores cristãos e a mesma fé. Eles foram um suporte especial ao longo do ano, já que íamos à missa, rezávamos o terço e até fizemos o Caminho de Santiago, onde vivemos profundamente a Semana Santa em cada pequena vila espanhola.

A Mater já se tinha ocupado de tudo: de levar-me a estudar no estrangeiro, que era o meu grande anelo, de me dar uma missão para continuar a trabalhar para Ela e de me rodear de uma comunidade que seria o meu suporte espiritual durante a minha estadia em Espanha. Agora era só começar a trabalhar.

Missionário e missionado

Santuário de Valldoreix, Barcelona

Ao longo de todo o ano de 2017 fomos realizando reuniões e jornadas com os rapazes como preparação para a Aliança de Amor. Estes momentos foram um enorme presente, já que mais do que eu transmitir-lhes ou ensinar-lhes algo, era eu que saía surpreendido e aprendia com eles todos os dias. A sua espiritualidade era tão profunda ao ter nascido praticamente em famílias schoenstattianas e, sobretudo, a sua fé era muito firme em terras onde cada dia é mais difícil ser católico.

Isto realmente é digno de nota, já que para os sul-americanos é bastante fácil manter e crescer na nossa fé. Nascemos em famílias católicas, somos batizados em tenra idade, existe grande quantidade de colégios, paróquias e movimentos católicos onde se pode ter formação na fé. Mas ser católico e com tanta convicção num continente onde cada vez existem menos crentes, é admirável.

Durante este processo, para além de ajudar estes jovens na sua preparação para a aliança, também tinha o desejo de poder aprofundar a minha fé. Com a ajuda do Padre Jaime fui-me preparando ao longo do ano para entregar a minha Carta Branca. No princípio tive muitas dúvidas pelo grande compromisso que isto significa. Assumo o desafio e quase no final do processo de preparação, fiquei plenamente convencido. Fui realizando a minha historia de vida e pude dar-me conta da presença de Deus em cada um dos momentos, felizes e tristes, e como hoje depois de tantos anos Deus me conduziu até este ponto. Já que não tinha nenhuma dúvida de que o abandonar-se nas mãos de Deus e o estar aberto a que se faça a sua vontade é a melhor maneira de viver.

No sábado 14 de outubro, os rapazes selaram a sua Aliança de Amor e eu entreguei a minha Carta Branca. A Mater fez com que lhes entregássemos tudo, nada mais nada menos, que no dia dos festejos dos 20 anos em que Ela se tinha estabelecido no Santuário de Valldoreix em Barcelona.

Este é o nosso lugar predileto

No dia seguinte à consagração, viajei para a cidade de Colónia, Alemanha, com o objetivo de chegar ao Santuário Original para estar ali pela primeira vez, celebrar um novo 18 de outubro onde tudo começou e agradecer por tantas bênçãos recebidas no último ano.

Não há palavras que possam definir a experiência de passar uns dias em Schoenstatt, um lugar de tanta paz e beleza onde nos podemos encontrar plenamente com Maria e olhá-la nos olhos durante horas.

Conheci muita gente de tantos lugares do mundo: do Paraguai, Brasil, Chile, Argentina, Alemanha, Espanha, Portugal, entre outros, e apesar das diferenças culturais que existem entre cada país, impressiona o bonito que é o carisma schoenstattiano, profundamente marcado por essa atitude de oração, de serviço e de alegria que nos representa. É bonito saber que em qualquer parte do mundo onde se encontre Schoenstatt, podemos sentir-nos em casa e em família.

Pela sua mão, Deus leva-nos sempre a bom porto

Analisando tudo o que vivi ao longo da minha vida, não há a menor dúvida de que Deus e Maria estão sempre a estender-nos a mão, que vai haver momentos difíceis mas logo voltará a tranquilidade; que cada experiência ocorre por algum motivo que somos incapazes de entender, que só Deus sabe o que faz connosco, e tudo é para a Sua maior glória. O importante é não ter medo, abandonarmo-nos totalmente nas suas mãos e deixarmo-se guiar por eles. Devemos aprender a agarrar as suas mãos com alegria, não com medo e eles nos irão conduzindo por esse caminho, que poderá ser duro em muitos momentos, mas que leva sempre a bom porto.

Quero terminar este testemunho com uma das minhas frases preferidas do Padre José Kentenich, a qual considero deveria ser seguida à letra:

“Quem tem uma missão tem de a cumprir, mesmo que conduza ao abismo mais profundo e obscuro, mesmo que a um salto mortal se siga outro”.

Original: espanhol. Tradução: Maria de Lurdes Dias, Lisboa, Portugal

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