Colocado em 28. Outubro 2017 In obras de misericórdia, Projetos, Schoenstatteanos

Entregar amor e que alcance além do medio-día

Entrevista com Matthias Groß, Alemanha, voluntario da Casa da Criança na Vila Ballester •

Desde agosto de 2016 até agosto de 2017, Matthias Groß ofereceu-se como voluntário na Casa da Criança na grande Buenos Aires. A Casa está localizada perto do Santuário de Schoenstatt no bairro de Vila Ballester e é um projeto da Família de Schoenstatt, apoiado principalmente pela União de Família e da Campanha da Virgem Peregrina.

O Padre Kentenich visitou anos atrás a Vila Ballester, porque muitos imigrantes alemães se estabeleceram alí após a Segunda Guerra Mundial. Este é o lugar onde foi fundada Schoenstatt na Argentina, o lugar onde o Padre Kentenich deu várias conferencias e aqui, a família Vallendor foi a precursora do santuário lar e neste lugar se encontra o lar diurno para crianças das “vilas” vizinhas, como a chamam na Argentina aos bairros menos favorecidos, onde os estrangeiros (e inclusive os voluntários alemães) somente devem andar acompanhados. Devido à criminalidade e tráfico de drogas na vila, nenhuma pessoa de fora está segura nos estreitos e sujos becos. “Desde o Santuário, até os pobres”, esta frase de Joao Pozzobon a Família de Schoenstatt de Vila Ballester a vive muito concretamente. O Padre Horacio Sosa (+2007) dizia nos encontros sociais da Família de Schoenstatt, que o Padre Kentenich desejava que cada santuário de Schoenstatt, além de ser um centro de formação, fosse um lar de compromisso social. Isto acontece na Villa Ballester.

Durante a sua visita à America do Sul em junho de 2017, o Padre Hans-Martin Samietz de Alemanha, que também fez possível este intercâmbio, realizou uma entrevista com Matthias Groß. É um testemunho de um profundo vínculo com os educadores e as crianças da casa. O Movimento de Schoenstatt de Ballester os presenteia com este projeto às crianças e a suas famílias, que vivem nos bairros pobres vizinhos, uma idéia do que é o afeto. Inclusive quando existe suspeita que a maioria das crianças que visitam a casa, depois ficarão “grudados” no seu bairro, chegam a conhecer através da Casa a algumas pessoas que não pertencem ao seu bairro e que querem o melhor para eles. Tal vez esta atitude possa ajudar alguma vez a alguém a sair desta situação de menosprezo… e por que não, de ajudar-lhe a transformar seu bairro.

PHM: Ir ao estrangeiro era um desejo muito forte em ti. Como é que fixou em ti a idéia?

Sempre gostei de alguma maneira da idéia, de aproveitar o tempo após o Segundo Grau. Também não tinha muito claro o que queria fazer depois. E logo vi bem claro: conhecer uma nova cultura. De uma ou outra maneira, já tinha um acesso a America do Sul. Conheci algo da cultura através da minha namorada e da família dela. E o que me encanta: O idioma Espanhol! A música em espanhol é algo, que sempre gostei e a escutava sempre.  E assim, o continente, já o tinha relativamente claro. Porém, acho que o começo, o projeto, era somente de meio ano, porque um ano inteiro, achava um tempo muito longo. Mas retrospectivamente, me sinto feliz que não tenha sido somente meio ano. Passada a metade do ano, a gente começa a se acostumar, se adapta ao dia a dia. A segunda metade do ano é muito mais intensa que a primeira metade, pelo menos é isso o que tenho vivido. Não sei exatamente quando tomei a decisão de passar um ano no estrangeiro. Tenho um monte de amigos que também estavam no estrangeiro e falavam muito positivamente de suas experiências.

PHM: Algumas organizações oferecem ir por dois anos. Você teria aceitado estar dois anos? Ou aceitaria com a experiência que tu tens hoje?

Com a minha experiência anterior, nunca haveria de querer ir por dois anos. Dependia de alguns fatores, como era o estar separado da minha namorada. Agora, ao final do primeiro ano, por um lado, tenho desejos de voltar a casa, mas teoricamente seria perfeito, se pudesse ir por alguns dias a casa y logo voltar a este lugar. Simplesmente, fazer uma breve pausa. Pois aqui é um lugar que gosto muito. Além disso, está o desejo de voltar a ver os velhos amigos, simplesmente voltar a viver a rotina diária do lar.

PHM: Do que que tem mais saudades

MG: Hm… Tem algumas coisas. Não são coisas grandes. A maneira alemã é muito mais organizada em muitas coisas e é o que faz a vida mais fácil de viver, porque a gente está acostumado a ela. A comida aquí é fantástica, porém, coisas como Döner (especialidade turca) ou a cerveja alemã, são difíceis de superar (ele ri). Estas, serão uma das primeiras coisas que comerei de novo quando estiver em Alemanha.

Bom, com certeza, tenho saudades da minha namorada, da minha família, minhas coisas que tenho no meu quarto, tenho saudades de não ter o meu espaço. (Pensa) E no geral ter mais possibilidades: é a minha experiência em casa dos meus pais, onde eu vivo. Por exemplo, gosto de construir coisas, de ser criativo e mais coisas. E isto aqui é difícil, porque aqui não tenho os materiais, com os quais posso fazer algo, nem ferramentas. E sim, estou desejando simplesmente ter essas possibilidades de novo.

PHM: O que é o que você ganhou durante o ano?

Essa é ¨A Pergunta¨ (rísos)

PHM: A pergunta! (risos) Por que você gosta de estar aqui? Talvez para você seja mais fácil de responder.

Sim, essa é mais fácil para responder. Bom, aqui me sinto muito bem. A jornada de trabalho me atrai muito, porque na Casa da Criança somos uma equipe muito simpática com quem gosto muito de trabalhar. Na realidade foi muito fácil começar a trabalhar neste ambiente amigável e me resultará difícil deixar atrás esta experiência. O trabalho com as crianças também é algo muito bonito e divertido e a gente pode compartilhar um pouco do que sabe e pode fazer. Inclusive ao dar aulas de violão, em Espanhol sem muito conhecimento do idioma, no começo foi realmente… interessante (risos).

Também temos muito bons amigos aqui ao redor da esquina. Além de um matrimonio fantástico: nossa mentora e seu esposo, que sempre estão à nossa disposição, eles são um apoio perfeito. Já estou acostumado a esta cultura: beber mate e aos domingos churrascos com os amigos, isso já é parte da minha vida diária. E não quero perder isso. Estes são alguns dos motivos de por que eu gosto de estar aqui.

PHM: Descreva desde seu ponto de vista o projeto para o qual você trabalha.

A Casa da Criança é um lar diurno para crianças que vem da Vila vezinha: esse é um termo na Argentina para descrever um bairro gueto ou de pobreza. Aqui eles recebem um café da manhã, logo fazem as tarefas da escola, horas de cuidados ou oficina e ao meio-dia recebem um almoço, e logo mais vão à escola.

E também é importante dizer, que as crianças recebem na Casa não somente comida para eles, senão também comida para a sua família, assim a família tem algo de comer no almoço ou para a janta. O alcance de pessoas que tem a Casa da Criança são aproximadamente 100 pessoas.

Nos os voluntários somos responsáveis de ajudar às crianças com as tarefas, estamos a cargo de oficinas (violão e ofícios de manualidades) e ajudamos à cozinheira na cozinha. Também ajudamos nas coisas que surgem todos os dias: se chega uma doação de alimentos ou roupa, ajudamos a arrumar, organizar a despensa, esse tipo de coisas. São somente mulheres as que ali estão encarregadas, por isso é bastante prático se os jovens podem ajudar com as coisas pesadas.

Além, do que já mencionei, dou lições de violão. Isso comecei a fazer no começo do ano, porque os quatro violões que tinham, fizeram isto possível. Pensei que isto seria una linda coisa para dar às crianças. E Pablo, o outro voluntario, trabalha duas vezes por semana na marcenaria com as crianças fazendo quebra cabeças, coisas pequenas em madeira para as mães… qué mais? Ganchos de roupa, esse tipo de coisas simples que possam ser terminadas em duas horas e que as crianças possam lixar e produzir.

A única coisa que a Casa não é, do meu ponto de vista, não é um “projeto escada” para ajudar às crianças a sair a frente, senão que é um mundo paralelo ao que eles vivem. Isso sem dúvida que é uma coisa bonita, mas a pergunta é, que porcentagem das crianças que vem, acabam como seus pais. Essa é a parte que de alguma maneira me dói. Nas crianças tem um grande potencial e tem tanta vontade de fazer algo, mas devido à situação do seu lar, a situação social no seu bairro, é sumamente difícil tentar seguir em frente. E a Casa não tem nem as pessoas, nem os meios financeiros, para fazer um “projeto de escada” mais amplo.

 

PHM: Por que o teu trabalho tem um sentido? Tem dúvidas de que tenha sentido?

Não, de jeito nenhum. Nunca tive dúvidas que esta instituição tem sentido. Somente pelo fato de que as crianças recebem ali comida. E mesmo que seja uma gota sobre a pedra quente, o que eu não acredito que seja, por pequena que seja é uma gota. E eu opino, que as crianças no lapso entre três a quatorze anos tem a possibilidade de ver estruturas fora da sua vila e ver que tem possibilidades de ir em frente. Que existe outra realidade fora do seu bairro, longe da droga e da violência. E em parte aprendem algo de pedagogia schoenstattiana e desfrutam ali de uma formação equilibrada recebendo valores Cristianos e morais básicos. “Eu diria que isso é trabalho de formação: uma base moral, a gente se desculpa, se diz “obrigado,”, por favor,”, coisas tão normais que não se dão no ambiente deles. Isso aprendem (espero) na Casa. Este é um grande passo em qualquer caso. O projeto definitivamente tem sentido.

PHM: O que você reconheceu como pedagogia de Schoenstatt na Casa?

O kindergarten é dirigido, por exemplo, através da pedagogia de Montessori, onde se encontra anclada uma parte da pedagogia schoenstattiana, opino eu. Logo as professoras ou as encarregadas, acho que todas ou quase todas, pertencem a Schoenstatt e vivem isso na Casa.

Durante a última reunião de equipe, nos estávamos presente e ali se diz claramente, que o grande sentido da Casa é entregar amor às crianças, simplesmente estar ali para eles e tentar cumprir seus desejos. Simplesmente ser o oposto do que eles normalmente vivem: ser rejeitados. Por isso Laura (a chefa) pediu não chingar às crianças, senão ser sempre positivos, sempre entregar uma retroalimentação positiva. No começo, isso achei algo exagerado. Mas logo entendi como é a mentalidade dos braços abertos.

Acho que é assim: damos tanto amor, e que perdure alem do meio-dia (risos). Esse é o pensamento que tem por tras. E isso é algo lindo de olhar. E isso é o que se encontra em Schoenstatt e na pedagogia de Schoenstatt: simplesmente amar as crianças, aceitar assim como eles são. Sim, é lindo ver isso.

 

PHM: Como poderia funcionar a casa sem vocês os voluntários? Qué sería diferente? Qué  seria percebido?

Bom, não se daria a possibilidade de oferecer lições de violão e de marcenaria. Isso está claro. Com isso faltariam essas coisas adicionais. Creio que a estrutura básica teria suas falências, e tudo seria algo mais difícil.

Os assuntos logísticos não seriam tão fáceis de resolver. E agora existe uma situação especial porque uma das professoras ou encarregadas está doente faz meses. E ali muitas vezes podemos ajudar quando tem menos pessoal. Nesta situação somos uma ajuda.

Também acho, que o fato de que crianças venham como voluntários à Casa através do programa “meu caminho” (Mein-Weg), é uma coisa muito positiva, pois as crianças recebem de suas casas uma visão do pai ou do homem bastante transtornado, geralmente através de seus irmãos, tios, etc. Ali nosso trabalho é de pioneiros, mostrando o que de verdade é um irmão maior. Ou para as crianças do kindergarten, nos representamos em parte também à figura do pai.  Mostramos a eles o que poderia ser normalmente una personalidade masculina. Muitos deles não tem chegado a conhecer.

PHM: Se você fizesse um presente de despedida na oficina da marcenaria ou em outra oficina, que presente seria esse para a Casa?

Para toda a casa?

PHM: Sim.

Oh Deus! Eu não sirvo para dar presentes ou para fazê-los! (pensa um instante)

Não sei tal vez alguma coisa útil, com a que as crianças tenham uma alegria, alguma lembrança ou algo com o que eles pudessem continuar o que começaram. (Pensa)

Por exemplo, quando eu já não estiver, já não terão aulas de violão. (Pensa)

Sim, se eu pudesse, acho que faria violões que daria às crianças. Aqui não podemos dar os violões às crianças. Temos quatro e pertencem à Casa. E é mais ou menos claro, que por algumas pessoas, estes violões não voltariam a aparecer se as emprestáramos, porque as crianças não tem um lugar privado ou um quarto privado onde as possam guardar. Sem o violão na sua casa, elas  podem praticar somente, uma vez por semana, meia hora na Casa. Assim o avanço é mínimo. E eu acho que a música é algo bastante importante. Para mim é muito importante e posso imaginar que muitas crianças, se tiverem a possibilidade de tocar regularmente um instrumento, seria capazes de criar algo próprio, que lhes dê mais personalidade. Assim eu penso, não se trata somente de música, de tocar um instrumento, senão de uma ferramenta para expressar algo. Se eu pudesse, eu faria violões ou pequenas ukeleles porque são mais fáceis de tocar.

PHM: Eu acho que você tem muito mais que dizer, mas aqui fazemos um ponto. Muito obrigado!

Ok, nenhum problema!

 

Original: Alemão 13/09/2017, Tradução: Glaucia Ramirez ,  Ciudad del Este, Paraguay

 

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