Colocado em 2. Dezembro 2017 In Francisco - Mensagem

Fidelidade é mudança

MENSAGENS DO PAPA FRANCISCO

A mudança é saudável não só quando as coisas correm mal, mas também, quando tudo corre bem e somos tentados a descansar sobre os resultados obtidos. 

Foi nos anos 90 do século passado, que um teólogo metodista inglês escreveu sobre a visão do Padre Kentenich, contrastando as suas ideias e agir com o que começou a detectar em alguns sectores da Igreja como “uma ideologia conservadora, à qual os seus protagonistas chamam fidelidade”. Para este homem que se fascinou com a audácia e renovação nos escritos do Pe. Kentenich, a palavra que surgiu no contexto do Centenário do nascimento de José Kentenich, “fidelidade criadora”, foi como uma revelação esperançosa não só para a corrente ecuménica, mas, para toda a Igreja e para o diálogo social – e, também, para o rumo de Schoenstatt.

Temos na história de Schoenstatt um acontecimento que marca este rumo: Hoerde. A Jornada na povoação de Hoerde, em 1919, que terminou com a Fundação de Schoenstatt como Movimento independente da Congregação Mariana no lugar de Schoenstatt. Para alem, do próprio evento, Hoerde significa uma atitude que não se conforma com o que já se tem, se sabe, se conhece e se faz. Ou seja: Uma fidelidade que é mudança.

Cada organismo, tarde ou cedo, corre o perigo de “se sentar”, de “se instalar” no de sempre. Chamem-lhe conformismo, fidelidade, comodidade, conservação ou simplesmente debilidade humana. Faz falta o que perturba, irrompe, exige mudança para não se petrificar.

Horde é “o que perturba” através de um tal Luis Zeppenfeld, de um tal Kraus Scheuffgen que não deixam em paz com a suas inquietação e insistente: “E, agora?” Com as quais nos fazem sair do habitual, e nos fazem ir mais longe que o “ponto de não retorno”, ao perguntarem a todos: “A guerra acabou. E, agora?”

Em concreto, houve que decidir entre duas opções: “A guerra terminou. Regressemos ao habitual” e “a guerra terminou. As formas excepcionais elaboradas para a situação excepcional da guerra, convertem-se agora, na situação normal e, é criada a “União Apostólica”. Foi escolhida a segunda alternativa; uma decisão, em todo o caso, pela qual é necessário, optar sempre de novo, tal como foi explicado acima.

Neste contexto, o Papa Francisco oferece-nos, na sua mensagem aos participantes do 7º Festival de Doutrina Social da Igreja, em Itália, um manual para a fidelidade criadora, para a passagem da zona de conforto para a zona de risco, do olhar para trás, ao olhar para o “mais além”, do “sempre se fez assim” para o compreender que “ser fiéis comporta a capacidade de mudar”.

Texto integral da saudação do Papa Francisco aos participantes do 7° Festival da Doutrina Social da Igreja

Estimados irmãos e irmãs!

Saúdo todos vós, participantes no 7° Festival da Doutrina Social da Igreja, que este ano tem como título “Fidelidade e mudança”. Esta expressão, que intencionalmente suscita uma certa “surpresa” lógica, leva-nos a considerar que, na realidade, ser fiel exige a capacidade de mudar.

Pensemos na experiência de Abraão, que a Bíblia nos mostra como modelo de fé. Quando já era idoso, Deus disse-lhe: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos» (Gn 12, 1-2). Para ser fiel, Abraão teve que mudar, partir. A Palavra de Deus ajuda-nos a distinguir as duas “faces” da mudança: a primeira é a confiança, a esperança, a abertura à novidade; a segunda é a dificuldade de deixar as certezas, para ir ao encontro do desconhecido. Com efeito, faz-nos sentir mais tranquilos, permanecer no nosso ambiente, conservar, repetir palavras e gestos de sempre — isto faz-nos sentir mais seguros — em vez de sair, partir, empreender novos processos.

Então, perguntemo-nos o que acontece se mantivermos a nossa fidelidade a Deus e ao homem. Na história de Abraão vimos o efeito da chamada do Senhor: mudou radicalmente a sua vida, levou-o a entrar numa nova história, abriu-lhe horizontes inesperados, com novos céus e novas terras. Quando se responde a Deus, ativa-se sempre um processo: acontece algo inédito que nos conduz para onde nunca teríamos imaginado. Isto é importante: ativa-se sempre um processo, vai-se em frente, não se ocupam espaços, mas ativam-se processos.

Fidelidade ao homem significa sair de si para encontrar a pessoa concreta, o seu rosto, a sua necessidade de ternura e de misericórdia, para a fazer sair do anonimato, das periferias da existência. Fidelidade ao homem significa abrir os olhos e o coração aos pobres, aos enfermos, aos desempregados, aos numerosos feridos pela indiferença e por uma economia que descarta e mata, abrir-se aos refugiados em fuga da violência e da guerra. Fidelidade ao homem significa vencer a força centrípeta dos próprios interesses, interesses egoístas, e criar espaço para a paixão pelo próximo, rejeitar a tentação do desespero e manter viva a chama da esperança.

Deste modo a fidelidade a Deus e a fidelidade ao homem convergem num movimento dinâmico que adquire a forma da mudança de nós mesmos e da transformação da realidade, superando imobilismos e conveniências, criando espaços e trabalho para os jovens e para o seu futuro. Pois a mudança é saudável não só quando as coisas correm mal, mas inclusive quando tudo funciona bem e somos tentados a acomodar-nos nos resultados alcançados. Ampliar o nosso serviço, levar os outros a participar nos nossos projetos, dilatar os espaços da criatividade significa enfrentar o desafio da mudança precisamente para permanecermos fiéis a Deus e ao homem. Parece uma contradição, mas a fidelidade é este caminho que ativa processos e não nos permite deter-nos nos espaços que nos impedem qualquer criatividade, espaços que no fim se orientam no sentido do sempre se fez assim.

Ao transmitir-vos esta breve mensagem, dirijo uma saudação fraternal a Sua Excelência D. Zenti, Bispo de Verona, cidade que hospeda o Festival da Doutrina Social da Igreja, ao Padre Vincenzi e a todos os colaboradores, relatores e voluntários. Faço votos a fim de que esta iniciativa contribua para animar e apoiar a missão evangelizadora da Igreja no mundo do trabalho, da economia e da política.

Abençoo-vos e peço-vos, por favor, que oreis por mim. Obrigado!

Coordenação da tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal. Tradução das palavras do Santo Padre: vatican.va

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